quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Loucura e reforma psiquiátrica

Amigos,

Esta semana estou indo para a ABRAPSO em recife. Para quem não sabe trata-se de um encontro nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social e o maior congresso do país na área.  Nestes 4 dias de congresso, estarão presentes, não apenas grandes nomes da psicologia social brasileira, mas também psicólogos de todo Brasil, tornando o encontro o lugar perfeito para troca de experiências e informações.

Apesar de não ser nenhum grande nome também vou apresentar um trabalho que escrevi nos tempos de graduação. Trata-se de um trabalho em que discuto a importância da formação dos futuros psicólogos para a perspectiva da reforma psiquiátrica.

Para quem não sabe, a reforma psiquiátrica é a tentativa de uma nova ordem institucional para o cuidado de pessoas em sofrimento psíquico. Entretanto, colocar em prática esse processo tem sido de grande dificuldade já que no imaginário social, o modelo manicomial ainda permanece e a formação acadêmica dos profissionais de saúde ainda não é comprometida com a saúde coletiva e a atenção psicossocial.

Para esclarecer melhor meu ponto de vista, vou dividir este artigo em algumas partes que se complementam. Hoje pretendo introduzir um pouco sobre a história da loucura e com o passar das semanas desenvolver o resto do tema.

A primeira autoridade que me vem à cabeça quando penso em loucura é sem sombra de dúvidas um dos maiores pensadores do século e que sou grande admirador: Michael Foucault. 

Em seu livro “A História da Loucura”, busca entender a história de como a loucura foi percebida em determinadas fases da cultura ocidental, ou seja, se interroga sobre “o grau zero da loucura” caminhando desde o final da idade média, até o final do século XVIII, empenhado em buscar as condições históricas que permitem o surgimento da psiquiatria quanto ao discurso científico e o asilo como forma de tratamento que surgiu no início do século XIX.

Em linhas gerais, podemos especificar a loucura em três momentos.

Hoje falarei apenas em relação ao primeiro em que  os “loucos” vivem soltos, são considerados errantes, sujeitos a sorte e ao acaso. Após o controle da lepra é o louco que vai ocupar este lugar vazio deixado pelos valores e imagens atribuídas aos leprosos.

Entre os costumes do renascimento encontra-se o de confinar os loucos em navios para levá-los de uma cidade a outra, contudo, nem todos os loucos eram embarcados, o que para Foucault, torna-se difícil levantar o sentido exato deste costuma. Talvez, trate-se apenas de um ritual que envolva uma circulação de loucos. Assim, o louco circula entre espaços que não são seus, encontrando-se em toda parte e em lugar algum.  O temor da lepra e da morte não é mais o grande temor do renascimento, mas se o fim dos tempos está próximo é a loucura dos homens que o sinaliza e que o torna necessário.

La Nef des fous ( Navio dos loucos) de 

Hieronymus Bosch

 
A loucura impregna toda a paisagem, a cultura e as experiências da loucura. O renascimento é celebrado de diversos modos. Ela é expressa em ritos populares, artes plásticas, obras de filosofia e textos literários. Cria-se certo prestígio sobre a loucura, cujos enigmas têm sobre o homem um grande poder de atração.  

Com isso, começamos a resignificar os mitos que existem hoje em relação a loucura. O mito do louco como o gênio incompreendido devido ao fascínio em relação à loucura como experiência trágica, expressa em pinturas de Bosch, Theirry Bouts, stephan Lochner ou na literatura de Shakespeare e Cervantes; e a do louco profeta, como aquele que promete desvelar o mundo, o tempo do apocalipse, as verdades da condição humana e os segredos de satã surgem na época do renascimento e perduram até os dias de hoje.

Na semana que vem temos a continuação do artigo e falaremos um pouco mais sobre a loucura e sobre como ela foi vista em outros tempos.

Bruno Miralha Nocko
CRP: 06/106234
Tel: 57343121

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