terça-feira, 6 de setembro de 2011

A angústia e o desencantamento?

 

Neste momento muitas idéias me vêm. Quando sentei para escrever, cogitei fazer a apreciação de um texto que eu havia escrito anteriormente, de preferência o mais antigo entre eles, queria revisitar minhas idéias e compartilhar este processo. Mas aí nesta busca, me veio uma pesquisa realizada em razão de um trabalho da faculdade, sobre a angústia existencial. Mudei o rumo e fui procurar artigos na Scielo para relembrar o conceito; as palavras que utilizei na busca foram: angústia e fenomenologia. Poucos artigos, um me chamou mais a atenção porque se propunha a desvendar a maternidade frente à fibrose cística (eu não fazia idéia de que doença era esta), aí a pretensão do título e a curiosidade sobre a doença me fizeram lê-lo. Sim, vou colocar a referência no final para que você também possa ter sua compreensão, mas aqui vou dizer da minha. Sem camuflagens, sem usar a terceira pessoa, dando a cara a tapa mesmo.

Antes, vou voltar, lá atrás, na pesquisa sobre a angústia existencial. A fenomenologia (até onde alcança meu conhecimento sobre ela) diz sobre nossa condição enquanto seres finitos, que têm por certeza a morte, mas nem sempre tal finitude é experienciada e delegamos nossas escolhas a outrem. A percepção da perenidade inclina(ria) para a vivência do aqui e agora, do presente, do hoje. É se envolver, estar na relação, atentar aos desejos.

Das pesquisas acadêmicas, voltando ao artigo, têm ficado cada vez mais para mim que o aporte teórico, que apresenta de que ponto partiu a leitura proposta (estou usando isto como sinônimo de pesquisa), não tem aparecido. Será que ele não preexiste e se analisa os dados coletados com aquilo que se consegue fazer relação? Uma realização desenfreada de pesquisas em massas? O importante é publicar?

Este texto que li adota a compreensão fenomenológica, defende que é necessário aproximar do sujeito e perguntar para ele qual sua experiência para só então dizer sobre esta. Um pressuposto interessante, mas logo no início parece abominar aqueles que não quiseram participar da pesquisa, e a escolha onde fica? 

Uma pesquisa com 14 sujeitos que apresenta os dados em percentuais. Que menciona as relações teóricas como notas de rodapé, sem introdução. Recorta as falas para atestar as constatações. Diz do tratamento eterno e não menciona as outras facetas das vidas destas pessoas; que imagino terem outras identidades que não a fibrose cística.

Uma pausa neste desabafo. Vou fazer outra colocação.

E esta mania que os textos acadêmicos têm de se proporem a apresentar a verdade? As afirmações irrefutáveis, as exclamações. Cadê as interrogações, cadê as incertezas, aonde foram parar as dúvidas? Não as temos mais? Em que lugar foram escondidas as angústias? E tudo é uma grande colaboração à prática, até hoje não li nada sobre a constatação de ter sido uma pesquisa com preconceitos, que pouco tinha a contribuir e que não seria refeita pelo pesquisador. Não há arrependimentos acadêmicos?

Também tenho desencantamentos, e vou me permitir apresentá-los de vez em quando.

E sabe o que mais? Vou agora eu utilizar uma citação para atribuir um sentido totalmente diferente do proposto pelo autor: “Essa é uma experiência que a tristeza, angústia, dúvidas, sofrimento e medo estão presentes...” (TAVARES & CARVALHO & PELLOSO, 2010, p. 723).

Vou tomar uma água,
Patrícia Andrade.

Referência
TAVARES, Keila Okuda; CARVALHO, Maria Dalva de Barros and PELLOSO, Sandra Marisa. O que é ser mãe de uma criança com fibrose cística. Rev. Gaúcha Enferm. (Online) [online]. 2010, vol.31, n.4, pp. 723-729. Este é o artigo.

4 comentários:

  1. O próprio título me parece bastante ousado...
    "O que é ser mãe de uma criança com fibrose cística" parece uma tentativa de generalizar todas as mães...mas eu não li o artigo.

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  2. Pati, muito legal seu texto.

    Esses questionamentos que você fez primeiro me fez lembrar daquele itenzinho que a gente sempre pensa, ou deveria pensar, na hora de fazer o projeto da pesquisa: a relevância social/científica do trabalho.

    Eu não acho que seja um problema um grande volume de trabalhos publicados. O problema é que muitos não têm crítica, reflexão ou relevância alguma.

    Eu li o artigo e tudo me incomodou, mas principalmente o método e as considerações finais. A pergunta feita para as entrevistadas "Para você, o que é ser mãe de uma pessoa que apresenta fibrose cística?", sem sequer questionar o que é ser mãe e a função social da maternidade, é vazia, alienada, matém o status quo da sociedade.

    Então, está tudo bem que a responsabilidade do cuidado dos filhos é sempre da mãe? E mais, tudo bem também que ser mãe é estar fadada a sofrer (se trocar o nome dessa doença por qualquer outra crônica, verá a ideia é absolutamente a mesma)? Tudo bem, o patriarcado no capitalismo já está tão internalizado que é considerado condição natural, inquestionável, não é mesmo? Então eu publico um artigo que não vai servir pra nada nem pra ninguém, mas ao menos ganho uns pontinhos no meu Lattes. E assim NÃO caminha a humanidade. Afinal, sou cientista para quê/quem mesmo?

    Ai gente, sério, fico indignada quando vejo publicações assim.

    Ah, quanto a apresentação da verdade, isso pra mim é mais uma prova de um trabalho mal feito. Quando a gente se depara com um objeto de estudo e começa a investigá-lo, de verdade, e refletir sobre ele, não é difícil perceber que há sempre outros questionamentos a se fazer. Sabe aquela sensação de não dar conta de falar sobre tudo, que foi pouco tempo de pesquisa, que sua amostra poderia ser maior, que se fosse em outras condições o resultado seria diferente... Pois é... faltou, né?

    Também estou precisando de uma água pra conseguir engolir melhor tudo isso.

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  3. Isa, com relação ao grande volume fico pensando se ele num é um sintoma de toda esta forma como a produção acadêmica está. Acho que seja um indicativo.

    Pois é, também fiquei profundamente incomodada com esta pesquisa, ela num é a primeiraa que vejo deste nipe, mas foi um incejo em tanto para esta reflexão que apresentei.

    Pois é, e as novas configurações familiares, onde ficam? Não ficam?

    E concordo plenamente com a sua colocação sobre a apresentação da verdade.

    Bruno, o título é sim muito inquietante.

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  4. Pati...
    não tenho palavras, ESPETACULAR seu post!!!
    Se seu discurso fosse ao vivo, eu estaria aplaudindo de pé!
    beijosss

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