“Você é a perfeição” (O Segredo, p. 164)
Não pretendo abordar a depressão de um ponto de vista puramente técnico e objetivo. Se você pretende saber mais sobre sintomas depressivos recomendo abandonar esse blog neste exato momento e procurar sobre depressão em qualquer site de busca e você certamente encontrará mais de 200 milhões de resultados. Acredito que a depressão, assim como outras doenças psiquiátricas (não todas) são sintomas sociais e mais do que apenas uma desregulação química ou neurológica trata-se antes de tudo de uma desregulação social, o que não significa que analisar o crescimento atual das depressões como sintoma social é igual a escutar o depressivo na clinica. Aqueles que a procuram devem ser escutados um a um. Como Maria Rita Kehl nos trás, o sentido do sintoma social não exclui a singularidade de cada um.
Antes, algumas estatísticas:
Estima-se que cerca de 17 milhões de pessoas foram diagnosticadas com depressão nos primeiros anos do século XXI e o mercado de antidepressivos no país cresce cerca de 22% ao ano. Outros estudos apontam que pelo menos 17% dos Americanos tiveram pelo menos um episódio depressivo e é a maior causa de incapacitação em pessoas acima de 5 anos. Os suicídios aumentaram entre jovens de 10 a 14 anos em mais de 120% entre 1980 e 1990. Há vinte anos 1,5 % da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje esse número subiu para 5%. (Fonte: O Tempo e o Cão, Maria Rita Kehl. Recomendo!)
Mas como é possível já que vivemos em uma sociedade completamente antidepressiva? A proibição é clara: É proibido ser triste ou ter motivos para tal. Busca-se a felicidade máxima em cada ato e em cada momento. A tristeza é vista como tempo perdido, desperdiçado e sem sentido. Com isso cresce o aumento das idéias, medicamentos, terapias e treinamentos voltados exclusivamente para o fim do sofrimento, independentemente de sua razão ou circunstância.
Na era da velocidade é aceitável a utilização indiscriminada dos chamados antidepressivos, amplamente divulgados pelas poderosas indústrias farmacêuticas, não se importando com sua eficácia ou com os amplos efeitos colaterais causados. Com remédios, cada vez mais especializados, os sintomas clínicos da depressão são revistos e, consequentemente, o diagnóstico se torna cada vez mais impreciso. Com o aumento do número de indicadores e sintomas, aumenta-se também a quantidade de depressivos que utilizarão do saber/poder da indústria farmacêutica.
Entretanto, pesquisas sérias a respeito dos antidepressivos vêm demonstrando a ineficácia para o controle da doença, sendo que muitos cientistas contestam o mito de que a depressão é causada apenas pela ausência da serotonina e que, consequentemente, a utilização de antidepressivos seria a cura maior para o problema. Além de inúmeros e graves efeitos colaterais, o antidepressivo causa extrema dependência, ao mesmo tempo em que não se sente mais dor, não se sente desejo, nem tesão, nem vontade, nem vida.
A idéia passada é a de que as dores da vida deveriam ser dispensadas por meio da medicação ou do controle do comportamento, não se importando com o fato de que é na dor que podemos superar crises, aprender coisas novas e aumentar nosso autoconhecimento. A recusa ante ao conflito dá lugar a programas de treinamento, cursos motivacionais e livros de auto-ajuda. Ensina-se a não sofrer.
Além disso, é vinculado o pensamento de que apenas você pode ser responsável pela sua felicidade, excluindo outros fatores externos. Trata-se do grande ideal da sociedade burguesa, individualista e meritocrática. Entende-se que apenas pensamentos positivos ou o famoso “estar bem consigo mesmo” podem trazer retribuições e melhorias em nossas vidas, como promoções no trabalho, amor, amigos e outras coisas. A dor é negada em nome de um ideal máximo de felicidade.
Desta forma, nos tornamos cada vez mais infelizes por não estarmos felizes.
Bruno Miralha Nocko
CRP: 06/106234
Tel: 5734 3121
Bruno Miralha Nocko
CRP: 06/106234
Tel: 5734 3121
Otimo texto. Juro, estava sentindo falta desse tipo de leitura!!!!
ResponderExcluirPenso que a busca pelo desnecessario, porque alguem disse que era bom, eh algo que acontece com muita frequencia. Acabamos buscando coisas sem saber porque ou para que . . . Surge o sentimento de vazio. O consumismo exagerado, o desejo de consumir mais e nao poder, o surgimento de dividas, a impossibilidade de paga-las . . . Por ai vai, ne!! Uma grandiosa bola de neve. A Depressão é apontada pela OMS como a quinta maior questão de saúde pública e até 2020 deverá estar em segundo lugar.
O que fazer para nao permitir que a estatistica se concretize???
Ainda questiono se existe realmente essa questão de alarme tão grande. A cada dia mais existe um aumento do número de diagnóstico, mas acho que isso está mais ligado a pressão da indústria farmaceutica somado ao grande poder/saber que foi atribuido aos médicos na contemporaneidade. A depressão hoje é o equivalente a melancolina na era vitoriana. Ela sempre existiu. Não que ela de fato não esteja com um número crescente de casos, principalmente ligado aos determinismos da vida moderna, mas tenho minhas dúvidas se é tão alarmante assim.
ResponderExcluir"principalmente ligado aos determinismos da vida moderna" . . . Quanto temo o aumento da depressao eh pensando nisso. Ao mesmo tempo, entendo quando voce diz que talvez nao seja tao alarmante assim ! Mas sempre fico pensando se eh, ou como eh possivel vencermos esse deterministo.
ResponderExcluirContrapondo um pouco a discussão, achei uma passagem de um livro muito interessante, que acho que agrega um pouco nessa discussão:
ResponderExcluir"(...) maybe we're not really designed to be happy - from a evolutionary standpoint. Maybe happiness is, at best, a temporary state that functions as an incentive to the behaviors that biology wants from us, and that we're meant to strive for."
Isso me lembra também muito aquele filme da Julia Roberts, Closer...
Ass: Zureta