segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sexualidade – parte I – As definições



Gostaria primeiramente de esclarecer que essa postagem não será sobre Psicanálise. Apesar de gostar das teorias psicodinâmicas e me identificar com algumas delas, quero levantar a importância de todas as Psicologias debaterem esse assunto. Digo isso porque, durante a graduação, percebi que pouco se falou sobre sexualidade fora das aulas ministradas por psicanalistas e isso fortalece ainda mais o imaginário de que “só Freud explica”.

Como já contei no primeiro post o meu gosto pela Psicologia Social, compartilharei aqui certas compreensões sobre alguns aspectos sociais e culturais e a implicância deles no prazer, na satisfação ou no sofrimento, processos psicológicos que podem ser considerados, subjetivos, mas não individuais. Obviamente não darei conta de falar sobre tudo, menos ainda de explicar todos os pontos levantados, já que nem a Psicologia explica tudo. Nem é essa intenção. Meu objetivo é, na verdade, trazer vocês para esse debate, que, aliás, é longo, por isso dividi o texto em três partes, para que possamos gozá-lo sem pressa.

Esse assunto me interessa muito. Gosto de ler e debater com professores, colegas, amigos, familiares, namorado. E não é raro notar que muitos (e às vezes me incluo nessa) têm dificuldade em, não só falar sobre a própria sexualidade, mas sobre toda sexualidade humana. Essa dificuldade ficou bem mais evidente nos estágios que eu fiz. Pais, educadores, psicólogos e um abismo entre eles e a sexualidade das crianças e dos adolescentes. Se forem crianças e adolescentes com alguma deficiência ou transtorno, então, o abismo fica ainda maior e mais obscuro.

E por que é tão difícil? Afinal, o que é sexualidade?

Eu quis ser democrática com os leitores que não são psicólogos, por isso procurei a definição em um local de fácil acesso (escolas, universidades, bibliotecas públicas, acervos pessoais, internet, todo mundo pode acessar): o bom e velho dicionário. Mas a pesquisa não foi satisfatória. Vejam o que encontrei (em quatro fontes diferentes):


SEXUALIDADE (s. f.):

- Qualidade de sexual;

- O conjunto dos fenômenos da vida sexual;

- Sexo;

- Modo de ser próprio do que tem sexo;

- Conjunto de caracteres especiais, externos ou internos, determinados pelo sexo do indivíduo.

SEXO (s. m.):

- Diferença física e constitutiva do homem e da mulher, do macho e da fêmea: sexo masculino, feminino;

- Conformação que distingue o macho da fêmea nos animais e nos vegetais;

- Conjunto dos indivíduos que têm o mesmo sexo: reunião para os dois sexos;

- Órgãos da reprodução;

- Relação sexual, coito.


Achei essas definições muito vagas, resolvi então procurar no Google, o oráculo dos internautas. Compilei aqui o primeiro resultado de busca para cada palavra.

O primeiro resultado para “sexualidade” está no site Brasil Escola, um portal voltado para alunos da Educação Básica.

“Considera-se sexualidade as diversas formas, jeitos, maneiras que as pessoas buscam para obter ou expressar prazer. É basicamente a busca do prazer humano em suas diversas formas. A ideia de prazer irá variar de pessoa para pessoa, levando em conta a realidade de cada indivíduo. Quando uma pessoa está sentindo prazer, ela está vivenciando a sua sexualidade. A busca do prazer se dá de várias formas, em variadas circunstâncias” (grifos meus).

Achei essa definição bem legal, ela é ampla, mas toca em um ponto que os dicionários esqueceram: o prazer. Sendo assim, além da questão orgânica ou de gênero, sexualidade abarca afeto, gozo, relação sexual, beijo, abraço, amasso, carinho, masturbação, paquera, corpo, fantasia, orgasmo, fetiche, orientação sexual, tesão, excitação, prazer, prazer, prazer...

O que eu achei mais interessante é que esse texto está em um site de educação. Mas será que a sexualidade, assim, da forma como foi descrita, compreendendo as diversidades, é tratada naturalmente como foi escrito? Será que os educadores falam realmente sobre as diversidades da sexualidade? Ou mais, será que falam sobre o prazer?

A minha experiência, primeiro como filha e aluna, depois como estagiária em uma instituição que atende pessoas com autismo, e estagiária de Psicologia Escolar e Psicoterapia Breve do Adolescente, me mostra que não, não se fala do prazer. E aqui levanto a minha primeira hipótese sobre porque é tão difícil se falar em sexualidade, porque mal se consegue defini-la e o prazer é um estranho.

Porém, não vamos cair na tentação de culpar pais e professores. Ainda que hoje se fale sobre a questão orgânica da sexualidade, sobre os órgãos, DSTs e reprodução, o discurso carregado de moralismo, valores religiosos e discriminação (elitista, racista, machista e heterossexista) persiste na nossa sociedade, é reproduzido o tempo todo. Criticar, sim. Culpar, não. Como eu disse no início do texto, é subjetivo, contudo não é individual.

O primeiro resultado para a palavra “sexo” foi o site SexoBR, um site de vídeos e fotos pornô, mas só escreverei sobre isso na segunda parte dessa postagem, que chamei de “O mito da perfeição”.

Até semana que vem!

5 comentários:

  1. Que chegue logo a semana que vem!!! rs É bem verdade que o sexo, ainda nos tuas atuais, é um tabu e as pessoas, de um modo geral- jovens, idosos, homens, mulheres. . . Encontram bastante dificuldades para falar sobre oassunto. Sendo assim, adorei a escolha do tema e quero muito acompanhar o que vem pela frente!

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  2. Interessante...

    Eu vivi muito sobre isso no Ceco. "Sexo com deficientes? Nem pense. Eles não podem. São doentes." Absurdo. Mesmo não falando sobre freud, eu sempre recorro a ele em alguns momentos...rs

    Em 1900 Freud já tinha rompido com as barreiras da sexualidade humana nos seus três ensaios sobre a sexualidade. 110 anos depois dizem quem ele está ultrapassado. Mas como se suas idéias ainda não foram colocadas em prática?

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  3. Não acho que o Freud está ultrapassado. Ultrapassados estão os psicanalistas que levam a ferro e fogo cada linha escrita por ele, sem considerar que sua teoria se referia à sexualidade burguesa de Viena do início do século XX, fato que o próprio admitiu em suas últimas obras.
    Freud foi um revolucionário, um dos primeiros a pensar a sexualidade fora dos padrões organiscistas e medicalizantes, um dos primeiros a pensar na sexualidade como parte da subjetividade humana e o primeiro a pensar em tudo isso como algo fundamental para a formação psíquica dos indivíduos. Não que isso não possa ser questionado, mas em 1900, isso não era pra qualquer um.
    Como eu disse, é um erro universalizar a teoria freudiana. Vou parafrasear o antropólogo Peter Fry: as teorias dizem mais a respeito da sociedade na qual foram criadas, do que os próprios fênomenos que tentam explicar.

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  4. Bom post, mto legal essa iniciativa! Não sei nada sobre psicologia, mas sei o que vejo.

    Vejo mulheres que expressam seu prazer em toda a sua potencialidade em uma relação sexual, e que demonstram que gostam de sexo serem discriminadas e ficarem sozinhas, pois mulher assim "não é pra casar".

    Vejo homens tendo qtas mulheres conseguem, desrespeitando o próprio casamento, agindo de forma irresponsável, transmitindo DSTs, mas nunca levam culpa, pois "homem é assim".

    Vejo homossexuais serem culpados de terem feito a "escolha errada", e ouço comentários preconceituosos como "pq não ficam - pelo menos - sozinhos a vida inteira? Pelo menos não escandalizariam a sociedade".

    Ao mesmo tempo, como dividir dentro de nós os costumes, cultura, tabus, religião, e sermos nós mesmos?

    E as diferenças entre liberdade e libertinagem?

    Fico aguardando o próximo post =D

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  5. Rubiz, que bom que está gostando. Continue participando.

    Você apontou aqui situações que observamos rotineiramente, esse discurso opressor, seja o machista ou homofóbico, é a prova de que o sexo não é livre. Falarei com mais profundidade sobre isso nos outros posts, mas onde há dominação, não há liberdade, e o que precisamos é lutar contra isso.

    O que eu acho importante lembrar, e principalmente o pessoal da Psicologia Social bate muito o pé sobre isso, é que essa divisão que você falou não existe, é impossível. A divisão imaginária ou mesmo científica é ideológica. O "sermos nós mesmos" compreende também a cultura, a religião, a sociedade... tudo isso compõe a nossa subjetividade. Por isso que eu repeti no texto que não podemos culpar algumas pessoas, ou simplesmente individualizar as questões.
    O que devemos fazer é tentar pensar de uma maaneira crítica sobre o porque e para que somos formados e agimos assim, para depois podermos conscientizar as pessoas.

    E sobre a diferença entre liberdade e libertinagem... essa discussão renderia um outro post, mas vou deixar a minha opinião por aqui. Eu acredito que na nossa sociedade ninguém é livre, inclusive sexualmente. Há pessoas que encaram a sexualidade de maneira mais liberal, outras que têm mais relações sexuais, mas isso não significa que são livres. Existem padrões de comportamento mesmo nessas pessoas e se elas estão fadadas a algum estereótipo ou julgamento moral, como você citou, elas não são livres. Onde há dominação, não há liberdade.
    Agora, esse termo "libertinagem" me deixa com uma pulga gigantesca atrás da orelha. Se você procurar o significado da palavra (deu pra ver que eu gosto de um dicionário, né? rs) verá que é um termo totalmente relativo e carregado de valor moral e religioso. Mais uma justificativa para minha ideia de que não somos livres. Se julgamos algumas pessoas como libertinas é porque ninguém é livre.

    Acho que eu só dei um nó maior ainda na sua cabeça, né? rs
    O debate é extenso mesmo, mas fico contente porque vc pôde contribuir com ele.

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