terça-feira, 4 de outubro de 2011

O joquempô e a espontaneidade

 

Estes dias estava em uma van indo para o trabalho e presenciei algumas cenas bem peculiares. Acredito que tenho estado mais atenta a estas situações em razão do meu trabalho (ludoeducadora em uma brinquedoteca), as crianças têm me encantado.

Um menino, de mais ou menos uns quatro anos, estava sentado com sua mãe na parte da frente, ele a chamou assim. Outras duas meninas, da mesma faixa etária, estavam alguns bancos atrás, também acompanhadas por um adulto. O menino propôs que sua mãe brincasse de joquempô com ele, e assim eles brincaram por um tempo, na verdade alguns minutos. Eu não tinha percebido as meninas até então. Mas a Andréia reconheceu a voz do seu colega e gritou bem alto: “Gustavo é você? Aqui sou eu, a Andréia”. O Gustavo não deixou por menos e com a mesma euforia respondeu “Sou eu sim, você tá aí então?”.

- Sim, eu tô!

- Ah, agora eu vi.

- Tenho uma prima.

- Ah é?

- Tenho uma prima (diz a Andréia que é interrompida pelo Gustavo)

- Já sei, você já disse.

- Ela tá aqui comigo.

Imaginem vocês que tudo isto estava sendo berrado na van. A mãe do Gustavo, os dois estavam sentados perto de mim, pediu para ele ficar quieto, e assim ele deixou de responder a Andréia, que depois de um tempo, deixou de falar também.

As demais pessoas não esboçaram reações. Eu, fiquei maravilhada com o diálogo.

O Gustavo propôs para a sua mãe que continuassem com o joquempô, mas ela recusou. Ele então começou a fazer perguntas, a primeira: “Mãe o fogo queima a pedra?”. Não ouvi a resposta dela, fiquei pensando comigo mesma, será que queima? “E a tesoura? Queima?”. Esta pra mim já foi mais fácil.

Juan Ignácio Pozo em Mestres e Aprendizes, discorre sobre os processos de aprendizagem. Para ele, o  conteúdo e a forma da aprendizagem são culturais e localizados historicamente. Aprendemos para fazermos parte da sociedade, é esta a forma de inserção de nossa existência naquilo que a precede. À medida que isto é realizado, o aprendizado, outras formas de aprender são estabelecidas. Não somos tão passivos assim.

Tenho percebido a urgência desta detenção nas crianças, quanto mais pequenas, mais fácil de perceber. E tenho notado também o quão, na maioria das vezes, aqueles que as cercam colocam-se alheios à este movimento.

Enfim, como disse anteriormente, não cheguei a ouvir a resposta da mãe do Gustavo, mas não acredito que ela tenha dado grande importância às perguntas dele, que eram sobre o joquempô, mas também sobre a vida. Eu mesma quase pedi uma resposta para ela, até porque no joquempô que eu conheço só entram o papel, a tesoura e a pedra.

Eu - quando criança - ficava encucada com algumas coisas, entre elas o fato de que a panela era a coisa mais inteligente que eu conhecia, porque não importasse o que estava lá dentro, ela sempre sabia fazer. E (também) por ter sido alimentada nestas constatações, sobretudo pelo meu pai, levo a cozinha como uma das paixões da minha vida, bem pertinho da psicologia e da educação.

Jóqueeeeeeeeeeeeeeemmmpô!

Até semana que vem,

Patrícia Andrade.

3 comentários:

  1. hahahahaha lembro até hoje que vc uma vez me contou esta historia da panela, muito legal seu blog pati!!!

    bjim
    van

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  2. Pati, lembrei de um livro que se chama O Dia do Curinga, é do mesmo autor de O Mundo de Sofia... O pai de Hans-Thomas, personagem principal, diz que as crianças são os maiores filósofos, porque são curiosas, questionadoras e se encantam com a grandeza do mundo.

    Eu também adoro isso nas crianças...

    Agora, que vc curte cozinhar eu não sabia... que legal! Eu costumo admirar as pessoas que cozinham pq sou um zero à esquerda rsrs.

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  3. Van, legal que você tenha gostado, mesmo. A história da panela é marcante pra mim, foram anos pra desvendar o mistério.

    Isa, não conheço o livro que você mencionou, me interessei, vou atrás. Ah eu cozinho sim, aliás gosto muito. Um dia a gente combina um jantar.

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