segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tá rindo do quê?

Esse assunto parecia estar batido pra mim. Já falei sobre o meu desgosto pelo Rafinha Bastos para várias pessoas, e consigo citar várias declarações dele que justifique meu sentimento. Entretanto, nas últimas semanas, o comediante e apresentador do CQC andou ofendendo gente “grande”, como a Wanessa Camargo e a Daniela Albuquerque. No blog Escreva Lola Escreva, há um texto interessante sobre a suspensão do Rafinha Bastos. Confira aqui.

Fiquei pensando sobre essa onda do “politicamente incorreto”, do insulto ser considerado arte, sem entendê-la muito bem, até que li na net uma entrevista fabulosa com o cartunista Laerte, que aliás foi feita antes desses acontecimentos, e refleti melhor. Veja só esse trecho:

Falando de travesti, o Fausto lembrou que você até foi acusado de ser homofóbico em momentos da sua carreira. Racista também [risos].

Mas você lembra por que isso ocorreu? Ah, deve ter acontecido, e eu devo ter sido homofóbico mesmo. Porque é o seguinte, a gente vai usando o humor assim, e às vezes pelo bom desempenho da piada a gente sacrifica certos princípios. A gente acha que não, a piada é boa, e que isso santifica ela, deixa ela kosher. Mas não é verdade, toda piada, toda mensagem humorística contém um caldo ideológico, senão não seria uma piada, não seria risível. E esse caldo ideológico corresponde muitas e muitas vezes a posições preconceituosas, reacionárias, muitas vezes mesmo. O humor como linguagem revolucionária para mim não é algo pacífico: “Ah, o cara é humorista portanto ele é revolucionário, é progressista etc”. Não é verdade isso, a história está cheia de exemplos.

Você acha que o humor tem que ter limites? Não, não tem que ter limites. O que a gente tem que ter também é uma crítica ilimitada. O humor tem que ser solto como qualquer linguagem humana tem que ser solta e livre, o que a gente tem é que ter o direito de exercer o poder da crítica sobre isso permanentemente. Então você dizer que uma piada é racista, ou sexista, e argumentar nessa direção, não é censurá-la, é exercer seu direito de crítica.

Muita gente defende o direito de opinião, mas para elas qualquer opinião contrária é uma censura. O que eu acho que realmente tem que ser proibido é o insulto, a difamação, a calúnia, a agressão, isso tem que ser coibido por lei. E não é totalmente coibido. Por exemplo, esse Carlos Apolinário, esse vereador, ele defende que o projeto de lei 122 vai difundir uma ditadura gay, ou corresponde aos planos de uma ditadura gay. Ou seja, ele é um reacionário filho de uma boa puta, um distorcedor de fatos. Ele quer alimentar essa homofobia que existe na sociedade com esse tipo de coisa. “Eles querem tomar o poder, eles querem obrigar você a ser gay. Vão ensinar seu filho na escola a ser gay.” Vocês assistiram
Milk, o filme? Lembram dos argumentos dos caras? “Como os gays não podem se reproduzir, porque são gays, do que eles dependem para a perpetuação da sua espécie? Adesões de crianças, cooptações de crianças.” Esse tipo de ideia está nesse discurso desse Carlos Apolinário. E isso tem que ser proibido sim, não é limitar a liberdade de expressão, é limitar o direito desses filhos da puta de continuarem insultando, agredindo e dando porrada na rua e no dia seguinte ficarem falando que a vida é assim mesmo, a liberdade é assim e que as pessoas são assim.

Laerte foi certeiro ao apontar o humor como uma reprodução ideológica. Se chamar de “puta”, “preto”, “viado”, “baiano”, é insulto e se esse insulto é engraçado, vejo aí dois sintomas da sociedade: o de preconceito e exclusão e o de dominação. A manifestação desses sintomas no humor me parece mais problemática porque é aceita, porque é aparentemente inofensiva, mas na verdade são reacionárias e dificultam ainda mais a crítica e a reflexão.

Confesso que logo no comecinho, quando o CQC estava começando a fazer sucesso, eu assistia o programa toda segunda-feira, porque a proposta me parecia diferente, um humor não-apelativo como a maioria do que é veiculado na TV. Entretanto, ao me atentar aos comentários dos apresentadores, compreendi que o formato pode até ser diferente, mas o conteúdo é absolutamente mais do mesmo. E o nome do programa faz cada vez mais sentido pra mim... eles fazem humor que qualquer jeito, CUSTE O QUE CUSTAR.

Vocês já pararam pra pensar no que nos faz rir e no conteúdo disso? E você? Tá rindo do quê?

3 comentários:

  1. Bem legal o texto, Isa...
    Muito interessante a reportagem na integra, sempre achei esse rapaz um tonto, mas nao sabia que era tanto. Eu tenho certa restricao com programas de humor de um modo geral e NUNCA gostei desse CQC. Me lembro, certa vez que estava no Guaruja com a Lais, Alinie, Bruno, Nicola e mais alguem que agora nao me vem a mente, comecou o CQC e eu reclamava, dizendo nao me conformar com o prazer deles em assistir aquilo.... Pois eh, talvez hoje eles sejam capazes de me entender ! ! ! A meu ver, a base dos programas de humor eh muito lisa e uma hora alguem acaba escorregando . . .

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  2. Muito bom esse texto. Acredito que a pior forma de preconceito e segregação é transformar tudo em piada. Como se o preconceito racial, social , étnico , religioso enfim todas as formas abomináveis de preconceito fossem "engraçadas". Fazer disso uma piada ao meu ver, é tornar isso aceitável ! É com certeza, uma maneira muita mais sutil de difundir o preconceito. Além do CQC o pânico também tem MUITO preconceito principalmente racial. Alguém já viu alguma panicat (aquelas mulheres que ficam rebolando de biquíni - unica definição que consegui encontrar) negra???? Além disso durante muito tempo o programa não tinha nenhum personagem negro, atualmente existem dois , um deles foi criado na época em que Lázaro Ramos protagonizava uma novela cujo nome não me recordo, o personagem de lázaro era um típico "garanhão" então o pânico cria um personagem chamado "Lázaro Ramos da vida real" que vai à festa de celebridades e geralmente "toma foras" das mulheres. Ou seja, o pânico cria o personagem com o intuito de demostrar que um negro ,na vida real jamais ficaria com mulheres bonitas, ricas e com alta posição social. Enfim, atualmente a mídia espalha o preconceito de uma forma extremamente sutil, que alguns podem até mesmo nem perceber ou achar que " estamos vendo maldade onde não tem " , mas é evidente que o preconceito é enrustido em piadas e brincadeiras de mal gosto.
    Bom , fugi um pouco do tema do post mas precisava expressar meu sentimento com relação ao "humor" do CQC e do Panico.

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  3. Eh bem essa a restricao que tenho com programas humoristicos, nao sei se existe outra forma de fazer humor, mas percebo que a tendencia dos programas humoristicos eh a reproducao do chiste as diferencas, seja ela qual for..... Se eh diferente deve ser alvo de piada e a diferenca deve ser botada em evidencia, claro!!! Essa eh a logica... Compreendo que generalizar nao eh o melhor caminho, mas realmente nao consigo citar um programa humoristico que nao faca uso desse esqueminha ! ! ! Como voce disse "Anonimo" as vezes isso acontece de forma muuuuito sutil... Mas uma hora alguem percebe, nao tem como passar batido !

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