quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A MORTE e suas intermitências...


Por Winnie Nascimento


"No dia seguinte ninguém morreu"´

Para quem está achando algo familiar, essa é a frase que dá início à fantástica história do livro “As intermitências da Morte” escrito por José Saramago, escritor português, que a partir da ficção faz forte crítica a nossa sociedade atual. O assunto escolhido para hoje, porém, não é a sociedade, mas sim a morte, tema evitado por muitos e temido por quase todos (ou não!).
Se você não teve a oportunidade de ler o livro, ele conta a história de um país (criado pelo autor), no qual, a partir de uma determinada data ninguém mais morreu. E por que isso aconteceu??? Esse é um dado bastante interessante, a Morte acabara se irritando com a postura dos moradores deste país, que viviam a reclamar de seus feitos. Diante da suspenção das mortes, você leitor acredita que todos ficaram felizes e contentes, correto??? ERRADO,  no decorrer da história se instaurou um caos em todo o país, não havia mais lugar para tanta gente, as pessoas que estavam entre a vida e a morte permaneciam moribundas, mas não podiam morrer, ainda que desejassem a própria morte (...) Enfim, o livro é maravilhoso e para quem não leu vale a pena conferir. A história vai MUITO além disso e não quero estragar contando. O que quero mesmo, é colocar em discussão as angústias, o despreparo da sociedade de um modo geral, frente a este tema.

É bastante dinâmico o modo com que as pessoas, em diferentes fases do desenvolvimento lidam com a morte. A criança é capaz de vivenciar perdas, mas é somente na adolescência que realmente é possivel compreender o significado da morte. Na fase adulta entende-se que a morte é passível de acontecer, porém é na velhice que essa possibilidade é mais aceita, uma vez que essa etapa é tida como a última fase do desenvolvimento humano, assim, nessa fase a morte é tida como natural.

Em um determinado momento da história, a morte passou a ser negada e vista como representação de fracasso e interrupção dos projetos de vida. Achamos natural uma pessoa idosa morrer, porém ficamos indignados quando isso acontece com alguém jovem, ou ainda, com uma criança, independentemente dos motivos que os levaram a morte. Esquecemos, porém, que a morte faz parte do ciclo vital de todos os seres, sendo eles humanos ou não. Acredito que isso ocorra justamente pelo fato de não sabermos o que acontece depois, para onde a pessoa vai, se é que ela vai para algum lugar. Mas, além disso paira uma grande dúvida no pensamento do indivíduo: “o que será que me acontecerá quando chegar a hora da minha morte?”. Penso também que, muitas vezes, a dor e o sofrimento se dão pelo fato de não conseguirmos suportar a falta que aquela pessoa nos faz, e não por temermos o local desconhecido que cabe ao que jaz, nem por estarmos preocupados com o sofrimento do moribundo em seu leito de morte.

Se pararmos para pensar, sabemos que todos morreremos um dia, sabemos que para morrer, basta estar vivo. Então, o que faz com que evitemos falar em morte ou pensar nela? Acontece que a morte do outro faz com que pensemos em nossa própria morte, faz com que lembremos que somos seres finitos e que talvez, parte do que tenhamos desejado, almejado para nós mesmos, ainda não tenha acontecido. E aí, o que fazer? Não dá para retomar o tempo perdido. O assunto morte mobiliza diversos sentimentos. O sentimeno de medo, de fracasso, de tempo perdido, de não realização, de saudades de tudo aquilo que passou e não voltará mais. Desejo de vida, de novas conquistas, de realizações...

Diria ser uma luta entre medos e desejos.


Referências:

HOHENDORFF, Jean Von; MELO, Wilson Vieira. Compreensão da morte e desenvolvimento humano: contribuições para a psicologia hospitalar. Rev. Estudos e Pesquisas em Psicologia, UERJ, RJ. 2009, n. 2, pp 480-492. Acesse o artigo

SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2005. Baixe o livro








4 comentários:

  1. Winnie, gostei bastante do seu texto. Só acho que vc cometeu um pequeno errinho... você disse que não iria falar sobre a sociedade, mas morte, ou melhor, a forma como é sentida ou temida é um elemento cultural fortíssimo.
    Essa forma de encará-la, de acordo com as fases do desenvolvimento, só faz sentido na nossa sociedade. Então, querendo ou não, você falou sobre a sociedade, sim rsrs.

    Fiquei "morrrendo" de vontade de ler esse livro do Saramago. Providenciarei o mais rápido possível.

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  2. É verdade, Isa, a forma com que encaramos a morte é sim fruto da cultura na qual estamos inseridos, sendo assim, indiretamente acabo falando da sociedade! O tema morte é para mim muito interessante e poderia falar muito e muito sobre isso, mas não em um só post... Talvez, mais para frente continue falando do assunto ! ! ! :)

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  3. Também fiquei com vontade de ler o livro. Vou providenciar.

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  4. Olha menina, o livro é simplesmente incrível e quando vocês lerem verão que o que eu escrevi é um quinto do livro, ou nem isso! ! ! Esse "Zé" Saramago é bom mesmo! ! !

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