sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Um cartão de São Paulo ou a Elegância discreta da Paulista.

A capa de um livro do Rubem Braga “Um cartão de Paris” me chamou a atenção. Era uma foto, no primeiro plano havia um gato e ao fundo a Torre Eiffel. Normalmente o que se vê nos cartões postais de Paris é justamente o contrário, uma bela foto da Torre em primeiro plano, robusta, imponente e solitária, sim porque somente ela aparece na foto, no máximo o turista embaixo dimensionando o tamanho, reforçando a sua majestosa grandeza dourada. Bom o fato é que o gato me intrigou por ser algo não trivial. E como coisas não triviais me agradam, resolvi escrever ou melhor, descrever como seria um cartão postal de São Paulo não trivial, diferente daqueles que encontramos por aí.
Escolhi falar sobre esta cidade porque nasci e vivo aqui, acredito conhecer mais do que há nas belas fotos de cartões postais dispostos nas bancas. Busquei “cartão postal de São Paulo” no banco de imagens do Google e encontrei como resultado fotos de diversos pontos da cidade, como da iluminada Ponte Estaiada, da Avenida Paulista reluzente pelos faróis dos carros e luzes dos grandes prédios comerciais, do Parque do Ibirapuera e de alguns centros históricos (Pateo do Colégio, Teatro Municipal, Estação Júlio Prestes).
A foto do meu cartão é da Avenida Paulista mais precisamente na esquina com a Rua Augusta sentido centro, sim porque se você for sentido bairro a faceta é outra, tem trilha sonora e poesia. Ao contrário da canção do Caetano Veloso, se alguma coisa acontece no meu coração é nesse cruzamento e não na Ipiranga com a São João.
Assim como a Avenida Dropsie (de Will Eisner) a Avenida Paulista no início era estritamente residencial, havia casas luxuosas verdadeiros palacetes e também alguns casebres. Sempre foi considerada um lugar caro para morar, ao contrário a Avenida Dropsie localizada em bairro periférico de Nova York tinha como característica principal ser uma vizinhança agradável e familiar que com o tempo foi desaparecendo, até se tornar um campo cheio de entulhos. A Avenida Paulista não desapareceu concretamente, mas passou por grandes transformações e foi por este motivo que fiz um paralelo com a Dropsie. Hoje a Paulista abriga o maior centro financeiro da cidade, muitos prédios comerciais, poucas residências, um vasto circuito cultural, alguns artistas de rua, muitas pessoas e pouca troca.
Andando pela Avenida escuto o som das buzinas incansáveis, uma melodia formada por inúmeros sapatos de salto andando apressadamente. Não há tempo. Não há tempo nem para atravessar a rua, atravessam no farol verde mesmo, neste momento as buzinas aumentam. As pessoas continuam correndo, não sei para onde. Aquela multidão corre em sua “solidão compartilhada”. O som de uma guitarra e um violino me chamou a atenção no cruzamento com a Augusta, eram dois rapazes que tocavam Eleanor Rigby, famosa música dos Beatles às 18:00 horas de uma sexta-feira. A primeira frase "Ah, look at all the lonely people” (Olhe para todas essas pessoas solitárias) parece vir de encontro com o lugar. Do outro lado da rua em frente ao Metrô Consolação um homem dança em cima de uma mureta com um walkman nos ouvidos, seu cachorro ao lado espera pacientemente até que o “show” termine.
Será que aquelas pessoas se deram conta da música? Ou olharam para o homem que não deixou de dançar? Será que notaram a elegância discreta daqueles artistas que encontraram na Avenida um palco? Não sei, parece que não há tempo para olhar o outro. Olhar o outro, muitas vezes implica em olhar para nós mesmos, o que nem sempre é agradável. Não há tempo para pensar, pensamentos só com hora marcada, por favor.
O meu cartão postal teria a trilha sonora instrumental de Eleanor Rigby, a foto do cruzamento com a Augusta e em primeiro plano a elegância discreta desses artistas que fazem da Avenida um palco para expor a existência em forma de poesia.



6 comentários:

  1. Adorei o texto, Flávia.
    Sabe, meu cartão postal de São Paulo também seria a Paulista, mas fico muito triste em ver que um lugar que é palco que manfestações culturais e políticas, também é palco de tanta indiferença, intolerância e repressão. Eu diria que essa elegância é mais do que discreta... ela não é sequer percebida, ou pior, é negada.

    Olha só:

    http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/artistas-de-rua-sao-expulsos-da-paulista/

    http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5318469-EI5030,00-SP+grupo+agride+na+av+Paulista+motivo+seria+homofobia.html

    http://www.defesanet.com.br/seguranca/noticia/1091/PM-SP-Dispersa-Marcha-da-Maconha-na-Av-Paulista

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  2. Concordo com vc Isa. Eu acompanhei estas notícias, a intenção quando iniciei o texto era falar sobre esse veto aos artistas de rua, mas de repente tomei outro rumo..rsrsrs Tbm me chama a atenção o fato da Paulista ser uma avenida partilhada no sentido de dividida entre tantas tribos, mas não ser compartilhada entre eles, ao mesmo tempo em que parece ser um lugar acolhedor das diferenças, é um lugar de intolerância, onde cada grupo se fecha e não permite o diferente. Acho que perceber o outro, a arte que nos cerca e muitas vezes fala de nós mesmos pode ser um caminho para o compartilhamento, assim como o sentido da vizinhança na Avenida Dropsie.

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  3. Eleonor Rigby deve ter sido uma das primeiras músicas de protesto da história. E descreve bem o nosso modo de vida.

    http://www.thecultureclub.net/wp-content/uploads/2009/12/Eleanor-Rigby.jpg

    Já que você escreveu hoje sobre a Paulista, terça vou escrever sobre a berrini...

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  4. Quarta, Brunão! Tá querendo roubar o dia dos outros? rs

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  5. Q maravilha de texto, Flavia! Este blog está mto bom! Passo todos os dias pra bizoiar! rs...
    beijos a todos e parabéns!

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  6. Eu quero muito ler um livro seu um dia, Flávia.

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