Por Bruno Miralha Nocko
“Todo mundo odeia motoboy e tal, mas todo mundo quer que o delivery chegue em 20 minutos.” Alessandra Mamone
Antes de começar, um agradecimento especial a todos que vem acessando nosso blog. Em apenas 12 dias de funcionamento tivemos mais de 1000 acessos. Foi muito além das minhas expectativas pessoais. Espero retribuir todo esse carinho nos dado até agora! Vamos lá!
Alguns de nossos pais nasceram no interior e vieram para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Alguns começaram a trabalhar em uma grande empresa e permanecem até hoje, outros abriram seu próprio negócio ou mudaram de empresa e alguns voltaram a sua cidade natal, não se adaptando ao ritmo frenético da cidade grande ou não conseguindo atingir seu objetivo. Muitos deles, em sua juventude, provavelmente trabalharam como Office-Boy, aquele adolescente com nível de instrução incompleto ou por terminar, cheio de espinhas, que em seu primeiro trabalho remunerado era responsável por andar pela cidade levando e trazendo documentos para as grandes empresas. Todos já ouviram histórias de Office-boys, que fizeram carreira e conseguiram ótimos cargos onde trabalhavam. Trata-se de uma história comum.
Com a chegada de uma nova era da velocidade, em que se exige cada vez mais em menos tempo, com as terceirizações maciças de serviços na década de 80 e 90, com a demanda de emprego cada vez maior, o Office boy perdeu seu espaço nas grandes companhias e deu origem a um novo profissional: O motoboy.
É fácil perceber que o Motoboy surge de uma demanda do próprio ideário capitalista. Uma crítica a sua forma de atuação é se esquecer que todos nós estamos imersos nesta mesma cultura e em uma sociedade que dele demanda. Trata-se de um dispositivo no melhor sentido Foucaultiano.
Explico melhor. Os membros de uma sociedade são formandos conforme uma visão de mundo, perspectiva política e ideológica dominantes. Entenda que os Motoboys não são elementos isolados, mas um representante de seu modo de pensar e agir, funcionando como um equipamento social e com uma função bem definida no conjunto social.
O motoboy surge com nossa própria necessidade de transporte de objetos com rapidez, agilidade e baixo custo. Ao criticar a “vida loca”, esquecemos que são profissionais mal remunerados, que cumprem longas jornadas de trabalho em troca de rendimentos maiores e sofrem pressões de seus entregadores para realizar a maior quantidade de entregas possíveis no menor tempo possível. É este profissional que leva a sua pizza quentinha nas sextas-feiras preguiçosas.
Moro em São Paulo desde que nasci. Inevitavelmente a minha fala passa por minhas experiências nesta cidade, mas acredito que o trânsito que tem assolado minha cidade é comum nos grandes centros. Há dias em que se levam 2 horas em um percurso que normalmente não levaríamos mais de 20 minutos. Hoje, com a facilidade da compra de carros, o aumento da frota cresceu mais do que a cidade consegue comportar. Alguns estudos, que desconheço a qualidade e o rigor científico, apontam inclusive para uma data em que a cidade de São Paulo parará para sempre. Mais do que apenas tempo perdido, o stress das grandes cidades maltratam e adoecem seus moradores, lotando consultórios de terapeutas, psicanalistas e psiquiatrias.
O motoboy nasce na brecha desse trânsito caótico, preenchendo os últimos espaços disponíveis, onde os carros ainda não alcançaram. Mas nada disso é uma grande novidade. Então, qual seria então a causa de todo o desprezo e o ódio por estes profissionais? Escuta-se com certa freqüência uma série de explicações e soluções, as quais para mim parecem simplórias e geralmente voltadas a culpabilização do motoboy: falta de respeito, “vida-loca”, correria, falta de juízo, bandidagem. E por estes motivos que pede-se a repressão do comportamento e até mesmo a extinção da profissão.
Gostaria de abordar o problema por outra perspectiva que talvez não agrade a todos. Se eu tenho um desejo que não posso satisfazer e também não admito que ele é meu, passo a reprimi-lo nos outros. Seria simplório concluir, e que talvez tenha passado na cabeça de alguns dos leitores, que todos os motoristas de carro são motoboys frustrados. Não. Mas existe uma dinâmica semelhante. Quanto menos eu me autorizo a ser dono daquele desejo, mas fico a fim de reprimi-lo nos outros. Confuso?
Para explicar melhor vou tomar emprestado um exemplo bastante interessante do Contardo Calligaris, autor que com freqüência será chamado para enriquecer minhas discussões: “sou marido para melhor amar a mulher que escolhi ou sou marido para me impedir de olhar para outras? Não é apenas uma opção retórica: quem vai pelo segundo caminho se define e se realiza na repressão de seu próprio desejo e, por consequência, do desejo dos outros. Para se forçar a ser monogâmico, ele pedirá apedrejamento para os adúlteros: reprimirá os outros, para ele mesmo se reprimir. No contexto social certo, ele será soldado de um dos vários exércitos de pequenos funcionários da repressão, que, para entristecer sua própria vida, precisam entristecer a nossa.”
Pede-se a repressão destes profissionais, por que nós, que sofremos diariamente com os abusos do modo de vida dos grandes centros, perdendo horas a fio em um trânsito sem solução, nos frustramos ao ver alguém que “parece” não ser infringido pela lei do trânsito. Ao invés da revolta da população para uma educação para convivência, para o respeito mútuo ou para a mudança de hábitos, desloca-se a raiva para uma classe inferior econômica e socialmente, culpabilizando o sujeito, sem levar em consideração questões sociais e históricas, pensando o indivíduo de forma puramente isolada.
Bruno Miralha Nocko
CRP: 06/106234
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Brunão, muito legal a discussão, gostei dos seus pontos de vista, mas acho que você acabou muito cedo. Você expôs bem o problema do motoboy dentro do trânsito caótico das cidades brasileiras, falou do aumento desgovernado da frota veicular, fez uma ligação com o capitalismo e tal. Até aí tudo ótimo. Mas, e daí? Como podemos lidar e resolver essa questão? Em que plano ela deve ser debatida? Se a extinção da classe dos motoboy é algo inviável, como lidar com essa nova profissão? Como regulamentá-la? E, mais importante do que tudo, como entender e lidar com o fenômeno corrente da organização dos motoboy como uma classe não apenas trabalhadora, mas mesmo como um grupo de interesses e objetivos comuns, com alto grau de identificabilidade entre si? Tal identificabilidade não passa somente pelo lado profissional (como seria o caso de um sindicato ou associação de trabalhadores), mas por outros fatores, tais como comunhão de experiências (ou o que você chamou de "vida-loca"), a comunhão do medo de dirigir em São Paulo, os baixos salários e, sobretudo, certa consciência de rivalidade com sua maior alteridade: os motoristas de carro. A criação dessa consciência comum e partilhada entre eles é um ponto crucial, pelo menos no meu ponto de vista. E é um ponto do qual eles mesmo se orgulham muito - é só passar ali na frente do sindicato deles.
ResponderExcluirPois bem: diante de todos esses fatores, a discussão do problema dos motoboy terá apenas caráter legislativo, ou passará também por questões de política pública, incentivo do transporte público e tudo mais?
Se você puder escrever um pouquinho mais o que você pensa sobre a questão acho que seria uma ótima conclusão para um já muito bom texto.
Felipe Augusto, concordo com tudo o que você disse e acredito que a finalização do texto sem uma solução fechada seja, justamente, para abrir espaço para essa discussão que acaba de surgir.Talvez possamos, juntos, pensar em soluções para o problema mencionado!
ResponderExcluirOutro ponto que deve ser mais falado, a meu ver, é a questão trazida logo no começo do texto em forma de citação. No imaginário da população das grandes cidades o caos é instaurado pelos motoboys, que "andam feito loucos" e "não respeitam ninguém". Acontece que, quando a pizza atrasa 5 minutos, o sujeito liga imediatamente para pizzaria apresentando queixa da demora. Cheguei a ver em algum jornal, que restaurantes que oferecem gratuidade na refeição caso o entregador ultrapasse o tempo limite estipulado para a entrega serão (ou já foram) proibidos de tal prática. Acho essa uma medida interessante (só para começar), porém, nem de longe, sana o problema. Até porque apenas uma parte dos motoboys são entregadores de restaurantes. E os entregadores de documentos, correspondências, mercadorias, etc. Quem nunca ficou nervoso com a demora da entrega do produto comprado pela internet? Ou quis fazer uma reclamação porque o sedex esperado levou um tempo maior para ser entregue do que o prazo estipulado? O que realmente precisa mudar? Acho essa pergunta bastante difícil de ser respondida, mas, para começar, precisamos compreender que somos grande parte do problema!
Então, felipe. Você tem toda a razão. Eu não terminei o texto. Está incopleto e eu fiz isso de propósito. Em parte por que eu queria apenas levantar alguns pontos de vista e por que achei que teriam muitas informações em um mesmo post, mas concordo em gênero número e grau.
ResponderExcluirMas se está rolando uma discussão já fico feliz com isso.
A raiva contra o motoboy é, além de tudo o que você falou, preconceito de classe. Não acho que essa aversão seja muito diferente daquela contra os "carroceiros", que a prefeitura de SP está fazendo questão de extinguir. Ora, eu não me importo que essas pessoas corram altíssimo risco de morte nas ruas da maior cidade da América Latina, não, elas que se danem, o que importa é que eu, sozinho no meu carro, não quero ser importunado. O nazismo perdeu na guerra mas venceu na ideologia.
ResponderExcluirEntrei no site do sindicato dos motociclistas http://www.motoboy.org.br/ e vi quanto eles têm pra lutar... muito, muito. Acho que a regulamentação, o salário fixo (pagamento por mês, não por entrega) é fundamental, mas a mudança tem que ser estrutural. Enquanto houver categorias de trabalho consideradas menor, enquanto houver dominação, haverá opressão.
Vejo pelo caso das empregadas domésticas. Pô, foi uma conquista o direito de serem registradas, com benefícios, férias, fundo de garantia e etc... Mas vai ver a porcentagem de mulheres que são registradas, é mínima. E mesmo muitas que são registradas acabam fazendo bicos em outros horários porque o salário é baixo e não dá pra sustentar uma família.
Como eu disse, e acredito de verdade que só assim será possível uma sociedade melhor, é preciso uma mudança estrutural.
É a velha história, Isa. Ataca-se o sintoma isolado
ResponderExcluirEm primeiro lugar, gostaria de parabenizá-los pelo brilhante trabalho e iniciativa. Soube do blog através da minha filha, Alinie Georgeto, que me recomendou visitá-lo. Confesso que gostei muito e me surpreendi bastante com tudo que li... Vocês produzem uma literatura clara, objetiva e muito instigante, deixando o gostinho de quero mais. Como sou psicóloga também, sei muito bem o quanto a psicologia pode ser contagiante e utilitária. Novamente, meus parabéns a todos vocês!!!
ResponderExcluirMárcia Cristina
Ah, sim! Sou mãe de Alinie Georgeto, colega pessoal, e agora profissional de todos vocês... Conheço minimamente, apenas a Winnie, mas fico orgulhosa que a formação de minha querida filha tenha se dado ao lado de pessoas como vocês!
ResponderExcluirObrigada Márcia,
ResponderExcluiré muito legal saber que o nosso blog está atingindo pessoas que não fazem parte da nossa "panelinha". E que bom que você gostou do que estamos postando. Espero que você continue acompanhando, pois todo dia teremos algo novo ! ! !