Por Winnie Nascimento
Não tenho muita habilidade com crianças, nunca pensei em seguir a área de psicologia escolar, ou clínica infantil, por exemplo, mas sempre me interessei pelas questões da infância desvalida. Durante minha graduação, tive que escolher três áreas de estágio distintas e em uma delas, psicologia jurídica, tive a oportunidade de conviver com crianças e adolescentes em situação de abandono, maus tratos, orfandade, ou vítimas de algum tipo de negligência. Realizei por um ano o estágio em um abrigo com crianças e adolescentes entre zero e 18 anos.
“Meninas que fazem arrastão na Vila Mariana são levadas para a delegacia de SP mais uma vez”. Manchete do Jornal “O Globo”, 11/08/2011
Muitas coisas acontecem todos os dias, em diversos lugares e uns ou outros acabam percebendo apenas quando a mídia aponta. Esse é o caso do grupo de crianças que faziam (ou fazem) arrastões na Vila Mariana, bairro classe média/alta de São Paulo. Apesar de vermos todos os dias crianças dormindo nas ruas, ou pedindo trocados nos faróis, são poucas as pessoas que fazem alguma coisa por elas. Muitas pensam em fazer, mas são poucas as ações ou atitudes que realmente acontecem visando solucionar ou amenizar a questão.
Primeiramente, fico pensando que se tal fato ocorresse apenas em regiões periféricas, dificilmente o caso viria à tona na mídia. Outra coisa que penso, é que, para muitos, apesar do choque, quinze minutos depois do noticiário, ou leitura da matéria, aquilo passa a não ter um pingo de importância.
Não tenho muita habilidade com crianças, nunca pensei em seguir a área de psicologia escolar, ou clínica infantil, por exemplo, mas sempre me interessei pelas questões da infância desvalida. Durante minha graduação, tive que escolher três áreas de estágio distintas e em uma delas, psicologia jurídica, tive a oportunidade de conviver com crianças e adolescentes em situação de abandono, maus tratos, orfandade, ou vítimas de algum tipo de negligência. Realizei por um ano o estágio em um abrigo com crianças e adolescentes entre zero e 18 anos.
Nesta experiência tive a oportunidade de compreender que a grande maioria das crianças e adolescentes acolhidos possui pai, mãe, ou algum familiar. De acordo com o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos, cerda de 80% dos indivíduos que se encontram na situação de acolhimento, possui algum familiar. E por que, então, eles estão nessa situação? Como as meninas citadas no começo do texto, que têm mães, pois, de acordo com o que foi veiculado pela mídia, estas se apresentaram na delegacia, as famílias não têm dado conta de cuidar e educar os seus filhos.
Até parece simples – “Ah, então a culpa é deles . . .”, acontece que a questão é bastante complexa. As grandes falhas presentes na sociedade é que originam as falhas isoladas desses pais e mães que não dão conta de criar os próprios filhos.Tendemos a culpabilizar os pais por essa situação, mas será que as mães dessas meninas estão satisfeitas com os feitos de suas filhas? Realmente não temos como saber.
Algum leitor pode estar pensando: “ah, mas e aqueles pais que colocam os filhos para pedir esmolas e ficam sentados esperando o dinheiro?”, ou: “e aquelas mães que não ligam para os filhos e vão para o baile”, ou ainda: “e aquelas pessoas que vão tendo um filho atrás do outro e usam as crianças para pedir e não procuram trabalho?”.
Ok, são muitas as possibilidades, muito mais do que ilustrei. Para começar a responder, digo que devemos voltar o olhar para uma questão: qual a concepção de família para esses pais que colocam os próprios filhos para pedir esmolas, para esses pais que trancam as crianças em casa e saem para se divertir, para esses pais que têm filhos de forma desordenada e os enxergam como “fonte de renda” quando saem com eles nos braços para comover pessoas e conseguir algum dinheiro?
A falha no sistema educacional, a falha no sistema de saúde, a falta de moradia a má distribuição de renda, tudo isso está envolvido. Muitas vezes os pais não conseguem entender o que é família, talvez por nunca terem tido uma. Não direcionam cuidados, afeto, preocupação para seus filhos por não saberem sequer do que se trata. Existem pais vítimas do alcoolismo, da dependência química que se tornam violentos e agridem seus filhos (questão bastante frequente), pais vítimas de doenças mentais que, muitas vezes, não são capazes de cuidarem de si próprios. Pude conviver com todos esses casos, os quais levaram as crianças ou adolescentes ao acolhimento.
Como foi apontado, a falta de serviços para a comunidade faz com que tantas crianças e adolescentes estejam em situação de acolhimento. Sendo assim, as políticas públicas cabíveis, devem ser acionadas. A meu ver, um dos maiores problemas na nossa sociedade atual é a falha no sistema educacional, não pensando apenas na questão da infância desvalida, mas na sociedade como um todo. O sistema de saúde, de um modo geral, também está bastante comprometido. Levando em consideração as questões que levam ao acolhimento, falta orientação em relação a métodos contraceptivos, mais do que isso, faltam orientações quanto às questões básicas relativas à sexualidade. Muitas mulheres não desejam engravidar, mas não sabem como evitar a gravidez e acabam, em um ato desesperado, abandonando seus filhos recém-nascidos em sacos de lixo, caçambas, portas de igreja. Algumas pessoas podem achar impossível alguém, nos dias atuais, desconhecer formas de prevenir a gravidez, mas acredite, isto acontece com frequência.
Realmente, ainda tenho muita coisa para falar, mas vejo que este texto está por demais extenso. Podemos, então, dar início a troca de informações, caso seja necessário darei continuidade ao tema na semana que vem...
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