Olá Amigos,
Havia pensado em escrever um pouco sobre os recentes massacres nas escolas do mundo todo, como o ocorrido no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro ou na cidade de Columbine nos Estados Unidos, mas quando li o artigo escrito da Flávia sobre a “all the lonely people”, não resisti e resolvi escrever sobre outra grande avenida da cidade de São Paulo: A Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini. Ao contrário da Flávia, meu cartão postal não será tão poético, mas eu também vou falar sobre uma “lonely people”.
Farei um relato baseado no livro Parceiros da Exclusão da Mariana Fix, que é arquiteta e pesquisadora no Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de arquitetura e Urbanismo da USP. O livro que me refiro foi seu trabalho de mestrado e produziu um relato sobre a verdadeira história por trás do novo centro financeiro da cidade de São Paulo, a chamada nova Paulista.
O título que dou ao artigo é o mesmo que foi utilizado pela autora e simboliza bem o que aconteceu com as mais de 50000 pessoas que perderam sua moradia durante a construção da Avenida Berrini e Água Espraiada no meio da década de 90.
Entre a marginal Pinheiros e a Avenida berrini ficava a favela Jardim Edith, formada por aproximadamente 3 mil famílias, próximo ao centro empresarial World Trade Center, shopping D&D e hotéis 5 estrelas recém construídos. Do outro lado da avenida ficava o barracão do Consórcio, que seria responsável pelo empreendimento, execução da avenida e canalização do córrego.
A prefeitura trabalhava em conjunto com o consórcio, a fim de cadastrar todos os moradores, pintando na porta de cada casa um número. Alguns barracos já haviam sido derrubados quando Mariana Fix chegou no Local.
“Num desses dias, eu estava numa roda com moradores prestes a serem “removidos”. Um senhor, muito irritado, se queixava comigo do que acontecia, sem parar de falar. Eugênia e João, que moravam desde quando eram crianças na favela, havia dias não trabalhavam por que não conseguiam encontrar um novo barraco [...] No meio da conversa surgiu uma mulher negra, vestida de branco, rosto franzido, que vinha nervosíssima da área de derrubada dos barracos: ‘quero ver quando eles chegarem no meu barraco. Eu não vou sair assim não. Se eles me deixarem na rua, pego meus filhos e vou lá para o Mélia (hotel 5 estrelas) com uma arma, um revólver, e mato eu e meus filhos!’”.
Claramente, a remoção da favela estava diretamente relacionada aos interesses daqueles que patrocinavam a remoção. Muitos moradores viviam na favela a mais de 30 anos e boa parte deles haviam trabalhado nas obras de construção dos shoppings e prédios que estavam sendo erguidos em volta.
A prefeitura oferecia três possibilidades para os que estavam sendo desalojados: a) comprar uma moradia financiada e construída pela prefeitura, b) receber uma verba em dinheiro ou c) ganhar uma passagem de volta à terra natal.
Os supostos apartamentos que os moradores do Jardim Edith poderiam comprar seriam construídos a 50 quilômetros da favela, contudo, graças à “bondade” de empresários, preocupados com a retirada completa da favela (e não apenas a faixa necessária a construção da avenida), foi comprado um terreno a “apenas” 15 quilômetros da favela, em Taboão da Serra, o que, as assistentes sociais, completamente alienados da situação, consideravam um grande benefício e a oportunidade de uma vida melhor em uma casa regulamentada para o futuro.
Porém, a maioria dos moradores desconhecia a existência desta proposta e mesmo assim, os que acabaram por optar pela moradia alternativa deveriam passar pelos alojamentos, que eram considerados pelos moradores como campos de concentração, com direito a violência policial, falta de condições dee saneamento, em que as famílias eram obrigadas a se dividir em espaços de 5x2,7 metros. Além de que a escolha pela moradia acarretaria no pagamento de uma parcela de 57 reais que não seria reajustada no início durante 25 anos.
O motivo de muitos moradores desconhecerem essa proposta alternativa de moradia é por que não havia espaço para todos os 12 mil moradores do Jardim Edith. Se todos decidissem comprar casas, teríamos a densidade de 3 mil habitantes por hectare “6 vezes superior à da planejada Brasília, 10 vezes superior à média de São Paulo, ou 50 vezes superior à Panamby”.
Aqui cabe uma pequena interferência minha na história relatava por Mariana. O bairro do Panamby foi criado no início dos anos 90 para servir de moradia aos grandes empresários, que no futuro trabalhariam na Avenida Berrini. Trata-se de um bairro nobre, que foi construído em uma zona de proteção ambiental e na sua construção ocorreram diversas irregularidades, que ficaram conhecidas como o “caso Lubeca”.
Nas demais favelas próximas, a situação era ainda pior. Para 40 mil pessoas removidas, apenas 638 moradias alternativas foram oferecidas a cerca de 18 quilômetros da última estação de metro. Ou seja, cerca de 50 quilômetros da favela.
As assistentes sociais prometiam casas com dois dormitórios, sala e cozinha, mas ao chegarem até o local, alguns moradores perceberam que se tratava de apenas um quarto e cozinha. Apesar de oferecerem essa alternativa habitacional, os moradores da favela eram induzidos a optar pela opção b: uma verba de R$1500,00, considerada ajuda de custo para mudança e o caminhão de mudança para os moradores desapropriados das casas que moravam a mais de 30 anos era uma “gentileza” da prefeitura. Os que desistiram da capital era encaminhados a sua terra natal.
Alguns moradores se recusavam a sair de seus barracos e negociavam o valor de R$1500,00. Às vezes conseguindo valores superiores, como até 3 vales famílias de mil e quinhentos reais. No início da remoção, os líderes comunitários se recusavam a abandonar as favelas, mas quando o consórcio percebia que estes líderes tinham o poder de mobilizar a população e oferecer resistência tentava comprá-los. Aos poucos os líderes começaram a desaparecer e os que assumiam seus lugares já tinham em mente a idéia de negociar de uma forma vantajosa a sua ajuda, ou seja, a luta organizada foi desarticulada. Além disso, alguns advogados implicados na causa, percebendo a remoção irregular entravam com ações, na tentativa de negociar o aumento da verba, pressionando legalmente, tentavam um acordo informal e mesmo assim boa parte dos advogados foi comprada. Os moradores eram constantemente pressionados a sair.
“Os riscos de ter seu barraco derrubado acidentalmente, o entulho entre as casas, a saída dos familiares e amigos e o medo de ser o próximo faziam com que uma parte dos favelados aceitasse logo a oferta da Prefeitura e deixasse o local. A pressa de fazer a obra era tanta que um menino foi soterrado pelo movimento de terra provocado por um trator.” Além disso, um dos moradores, impactado pela pressão de ter de abandonar seu lar, se suicidou com uma mangueira em volta do pescoço.
Enquanto as últimas famílias do Jardim Edith recebiam o pagamento e desmontavam a casa para a mudança, o primeiro trecho da Avenida Água Espraiada estava sendo inaugurado pelo prefeito Paulo Salim Maluf. Em seu discurso ele diz:
“Quero agradecer também aos favelados que moravam aqui. Não teve nenhum problema. Ninguém tirou ninguém a força, não. (...) Todos tiveram sua vida melhorada. (...) Finalmente eu queria dizer para vocês o seguinte: Sou cristão, eu acredito, eu creio. Tem um Ser Superior lá em cima, eu não sei se Ele tem a forma de um homem, se Ele tem um metro e oitenta de altura, um metro e noventa, ou um metro e setenta. Só sei que ele existe. É só estudar por exemplo o Sistema Solar, o Universo, os planetas todos, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte e outros. É só estudar um pouquinho anatomia do corpo humano, o paladar, a audição, o tato, a visão, o cheiro. Pois bem. Tem alguém superior, um Arquiteto Superior que fez tudo isso. Ele está vendo todos nós. Está julgando todos nós. No computador dele tem todas as ações da gente. Eu portanto agradeço a vocês, que através do voto popular há três anos me proporcionaram fazer esta obra. Eu agradeço, por que Deus está me vendo. Mas Deus está me vendo e deus um dia há de ser misericordioso. Quando a gente chegar lá, Deus vai dizer para a gente: ‘olha, eu vi você lá no Água espraiada, você melhorou a vida daquele povão. Vai ficar uns dez minutos no purgatório e pode ir para o céu’”.
Na semana que vem a continuação deste artigo.
Bruno Miralha Nocko
Crp: 06/106234
Tel: (11) 5734-3121
Interessante, Bruno. E muito triste também... Vou aguardar semana que vem para comentar melhor.
ResponderExcluirÉ de arrepiar....
ResponderExcluirUm amigo meu cientista social que trabalhou em um desses programas de desapropriação, relatou para mim uma vez que é isto aí mesmo, o processo é feito com um único interesse: desocupar o quanto antes o espaço para o início das obras e das demolições. E as famílias como ficam? Pois é, e as famílias? O fato é que não há uma preocupação central nelas. O importante é a remoção, e outra "para quem mora num barraco qualquer coisa tá bom".
ResponderExcluirIsso me lembra a retirada dos moradores de rua da praça da Sé na vinda do papa, de um dia para o outro não havia mais pessoas dormindo e ocupando aquelas ruas. Elas foram retiradas com jatos de
E, voltando as famílias, se voltarem para sua cidade natal melhor ainda, um problema a menos de urbanização, saúde, educação e etc, por aqui. A lógica utilizada parece ser um pouco esta né.
Aguardo pela continuação.
Não esperava menos desse camarada.
ResponderExcluirMas será mesmo que o Maluf foi um filho da p#@%&?
Será que ele apenas não relatou, o que veio por intermédio de um relatório de uma assistente social, que foi educadamente solicitada a proceder daquela maneira?
Não estou defendendo, mas também não posso culpar, aliás, a culpa inicial é de quem permitiu esse tipo de construção (as favelas), sem inetervir.
Infelizmente vou morrer e ver diversas ONGS (Organização onde Não atua o Governo), pois deixamos aos particulares a missão daqueles que nos representam.
Parabéns camarada, até a próxima.