sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A Psicologia mora ao lado

Mas aquela sopa fria nunca mais me deixou. Ela ressou, me acordou, me deixou consciente da língua e, de alguma forma, me preparou para os acontecimentos futuros.” (Retirado do livro: Cozinha Confidencial de Anthony Bourdain).

Este livro conta a trajetória de um chefe de cozinha, suas escolhas, aspirações, experiências, enfim, o caminho percorrido para se tornar um grande profissional. A partir desta leitura pude re-pensar e re-construir minha trajetória.
Durante muito tempo a casa ao lado foi habitada por psicólogos, desde criança tive a oportunidade de conviver com alguns e acompanhar as mais diversas trajetórias, especialmente de uma psicóloga que se tornou uma grande amiga. Eu freqüentava a casa vizinha periodicamente e ficava encantada com uma estante cheia de livros, os quais eu lia e relia os títulos. Por duas vezes acompanhei a psicóloga, vizinha e amiga em eventos da Reforma Psiquiátrica, primeiro em um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e depois no Parque Ibirapuera, onde usuários do serviço faziam apresentações (dança, teatro, poesia, etc) e também era possível participar de algumas oficinas, naquele dia escutei uma música do Raul Seixas (Sociedade Alternativa) e uma frase me interessou “fazes o que tu queres, pois é tudo da lei”, frase que fazia todo o sentido com o que ali acontecia o que eu vim a entender mais tarde. E assim começou a minha história com a psicologia.
Apesar destas vivências bastante interessantes eu ainda persistia na ideia de ser a moça do tempo. O que mais tarde (no ensino fundamental) recebeu o nome de jornalismo. Eu queria ser jornalista, sonho compartilhado com uma amiga da escola com quem gravei um vídeo como âncora de um jornal. No segundo colegial mudei meus planos, não queria mais ser jornalista, o vestibular era muito concorrido e a profissão também. Li algumas revistas sobre vestibular, cursos e profissões e muitas me interessavam. Na escola ganhei um livro de orientação vocacional chamado “Na dúvida, ultrapasse”, resultado: ultrapassei todas e não cheguei ao fim. É, eu não sabia o que queria fazer! Apenas sabia o que eu não queria (...) e naquele momento psicologia era uma delas. Na escola eu gostava das discussões que aconteciam nas aulas de geografia e filosofia, mas também gostava muito de química, principalmente química orgânica. No terceiro ano resolvi prestar vestibular para pedagogia, já que educação, dar aulas e crianças eram assuntos que me interessavam e continuam interessando. Na metade do ano iniciei as aulas em um cursinho comunitário dentro do Instituto de Psicologia da USP. Metade da sala ia prestar psicologia, eu não.
O cursinho era coordenado por alguns alunos e professores da psicologia e as aulas ministradas por alunos de diversos cursos de licenciatura da Universidade, havia ainda, plantão psicológico e orientação vocacional para os alunos. Alguma coisa naquele lugar me chamava mais a atenção do que as aulas do cursinho, era a matéria que ficava na lousa de alguma disciplina do curso de psicologia e as constantes discussões, assembléias que embasavam todas as decisões naquele lugar. Era um lugar que emanava conhecimento, posturas críticas, reflexivas e muito humanas.
Mesmo assim, no final daquele ano prestei vestibular para pedagogia em universidades públicas, não passei... ainda bem. Continuei fazendo cursinho e no meio do ano abriram vagas em diversas faculdades destinadas ao PROUNI (Programa Universidade para Todos) recém lançado pelo governo federal. Fiz minha inscrição no Mackenzie para o curso de psicologia e então, teve início uma série de desafios.
Esses cinco anos de graduação foram marcados por lutas, transformações, reflexões, conquistas, grandes amizades, alegrias, encontros, desencontros, decepções e alguns retrocessos. Muita coisa mudou, eu mudei, os vizinhos se mudaram (...) sim casa ao lado já não é mais habitada por psicólogos. Hoje, eu habito a psicologia, essa ciência de constantes questionamentos, inquietações e, sobretudo transformações.
Posso dizer que aquela experiência descrita no início do texto teve e tem até hoje um sabor especial, assim como a sopa fria teve para um grande cozinheiro transformando seu paladar, aquela vivência resultou hoje em meu interesse por psicologia comunitária, saúde pública e clínica, na minha militância por serviços públicos de qualidade, pela reforma psiquiátrica e também minha constante admiração pelo trabalho e pela pessoa que me apresentou a psicologia e mais importante do que isso me mostrou a responsabilidade em tornar-se psicóloga.
Ser psicóloga é ser humana, é poder rever conceitos, experiências atribuindo-lhes novos significados e sentidos, é afetar e deixar ser afetado pelo outro, é poder pensar sobre o humano e suas construções.

10 comentários:

  1. Flavia, mandou muito bem, adorei seu texto!

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  2. Oi! Eu tmb gostei bastante! Encerramos essa primeira semana com chave de ouro!!

    bjo

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  3. Parabéns Flávia!!! Adorei!!! Muitas realizações para todos nós!! Grande beijo!!

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  4. Muito bom o post, com gostinho de quero mais ! ! !Que delícia que é isto aqui.... Semana que vem tem mais...

    beijo!

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  5. Fico contente em saber que vcs gostaram. Acho que todos os textos são de qualidade e foram muito bem feitos. A proposta foi muito interessante, de certa forma nossas histórias se encontram, mto bom ter esse espaço de compartilhamento.
    Legal te ver por aqui Lucineide.
    Beijão

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  6. Concordo com o Bruno... semana fechada com chave de ouro! Mto legal saber a história da sua escolha, Flavinha...
    beijosss e semana q vem, EU VOLTO! hahaahha

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  7. Ah, Flávia! Puxa que texto lindo minha amiga. Você conseguiu expressar de forma única e especial os teus sentimentos e a sua vontade de vencer obstáculos. Já é uma vitoriosa e com certeza vai longe com garra e determinação, inteligência e sabedoria. Um grande abraço!!!!

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  8. Adorei Flávia, vi por uma outra perspectiva a sua história. Emocionante!!

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  9. Flavinha, que texto gostoso einh. A parte do vídeo eu não sabia, ótimo relato.

    Fico feliz que o livro tenha te tocado.

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