A postagem de hoje é a
continuidade de uma série de textos sobre sexualidade que iniciei
aqui.
Como eu havia contado,
a minha busca no Google pela palavra “sexo” teve como primeiro
resultado o site SexoBr, um site de vídeos e fotos de
pornografia. Vou confessar para vocês que não conferi todo o
conteúdo, apenas os expostos na página principal e também
verifiquei as categorias nas quais o material é dividido. Isso já
foi o suficiente para fazer algumas observações e muitos
questionamentos.
A primeira observação,
e mais óbvia, é o sexo como mercadoria, como produto. Sim, na
sociedade capitalista tudo vira mercadoria, isso inclui nossa
sexualidade e nossos corpos, que estão submetidos à lógica
produção-consumo. Acredito que isso não seja novidade pra ninguém.
Entretanto, observar esse produto de maneira mais crítica permite
analisar a ideologia vendida, quais são os padrões e estereótipos
reproduzidos e o que é dado como normal e verdade.
Os vídeos e fotos são
praticamente todos de pessoas brancas. As atrizes e modelos são, na
maioria, loiras de cabelos lisos. São tão parecidas umas com as
outras que muitas vezes achei que eram a mesma. Tudo bem, não vou
ser tão injusta a ponto de negar que haviam, sim, mulheres negras e
asiáticas. Contudo, estavam “classificadas” em categorias
específicas: “asiáticas” e “negras e mulatas”. Bom, aí já
dá pra perceber que a ideia é que mulher é mulher branca, quando
tem outra raça ou etnia não é mulher, é mulher negra, mulher
mulata ou mulher asiática. Homens negros não são “classificados”,
mas em todos os casos eram valorizados por seus pênis muito grandes,
o que não deixa de ser um estereótipo racista. Há também a
categoria “interracial”.
O machismo é evidente.
Mulheres submissas, o tempo todo disponíveis e excitadas, cenas de
estupro e violência, os orgasmos são sempre controlados pelos
homens. O que é diferente disso pertence a outras categorias, como
“safadas” ou “dominadoras”. Os nomes dados às mulheres,
ativas ou passivas, são quase sempre depreciativos: “safadas”,
“galinhas”, “cachorras”, “putinhas”, etc. As relações
lésbicas têm homens como espectadores, ou seja, nem vídeos e fotos de
lésbica são para mulheres. Gays e travestis são categorias à
parte.
Mesmo que o site
exponha também formas de sexo que não são tão aceitas
socialmente, como a zoofilia ou a coprofilia, não conseguiu escapar
da reprodução de padrões de comportamento e estéticos. Todos têm
orgasmos (as mulheres gemendo muito alto e os homens ejaculando
litros de esperma), quase sempre ao mesmo tempo, sem sequer a
necessidade de preliminares. Sexo oral é saboroso e sexo anal não é
dolorido, todo mundo gosta. Todas mulheres gostam de receber
tapinhas, bem como todos homens gostam de bater. As mulheres são
magras, têm seios médios ou grandes, bumbuns redondos e empinados,
fazem caras e bocas e usam salto alto para transar. Os homens são
fortes e têm pênis enormes. Todos são jovens. Não existem pelos,
cicatrizes, gordura, celulite, estrias. Deficiência, então, nem
pensar. E tudo o que é diferente disso também é categorizado:
“gordas”, “coroas”, “bizarros”.
Aí vocês podem me
dizer: “Mas, Isabela, sexo não é só a pornografia. Você não
pode generalizar sexo ao que você pesquisou no Google”. É
verdade. No entanto, esses padrões não são reproduzidos somente na
pornografia. A mídia e a indústria cultural colocam isso como
ideal. Para lembrar de qualquer programa de TV, filme, música,
campanha publicitária, revista que não reproduza isso é preciso
fazer um esforço enorme (alguém se lembra?). Além de mostrarem o
ideal, ainda dão receitas de como chegar à perfeição, sempre se
baseando no consumo e na coisificação das pessoas. Existe receita
para um corpo perfeito, para o orgasmo perfeito, mesmo prazer, beleza
e perfeição sendo conceitos tão subjetivos.
E aí chegamos no ponto
que eu queria: a subjetividade. É muito comum ouvir o discurso:
“faço isso porque eu gosto, me sinto bem”, “gosto de me sentir
bonita, me arrumo pra mim”. Tudo bem, eu tenho quase a certeza de
que as pessoas realmente se sentem mais bonitas quando se arrumam,
estão mais magras. Contudo, o belo não é escolhido. Ele representa
os padrões determinados, o diferente é feio ou “categoria à
parte” e provavelmente gera algum sofrimento. Isso está tão
internalizado que pouco é questionado, já é dado como realidade.
E agora fica mais um
questionamento: se o sexo é uma mercadoria, vendida tanto e tão
facilmente, por que ainda é tabu? Só para manter a discussão
aquecida para o terceiro e último texto, que chamei de “Corpo,
tabu e dominação” e postarei semana que vem.
Até lá.

Oi isa,
ResponderExcluirRecomendo a leitura do Livro a História da sexualidade de Michael Foucault e revolução sexual do Wilhelm reich. Os dois dão um belo panorama a respeito da sexualidade. Dois belos livros.
Bruno
Ah sim, Brunão... muito do que li sobre sexulaidade foi no Foucault, principalmente para meu TCC, que usei muito o volume I.
ResponderExcluirAgora Reich nunca li, e olha que até tem aqui em casa, mas acabei priorizando outras leituras e não tive mais oportunidade... Mas valeu a recomendação. Eu imagino que seja mesmo muito bom.
No final do terceiro texto vou fazer uma listinha de textos, livros, sites e blogs que eu recomendo. Fica de olho...
Nossa, Isa! Mto bom seu post... as contradições q vc apontou realmente me fizeram pensar sobre essa questão do sexo como tabu, mesmo sendo tão incentivado direta e indiretamente!
ResponderExcluirA mídia divulga os padrões de beleza, em alguns casos absurdos (aí podemos entrar na questão até de distúrbios alimentares q podem ser causados por conta disso), sempre voltados à essa questão sexual, fazendo parecer algo comum. Porém, a repressão sexual é nítida e causa até mesmo sentimento de culpa em algumas situações. Sexualidade é um dos temas mais delicados e polêmicos, principalmente qdo relacionado à religiosidade ou moralidade, mas a mídia sempre tenta, com a famosa luvinha de pelica, passar a falsa sensação de normalidade!
Enfim, é uma contradição tão contraditória q nem sei se consegui me expressar direito... podemos ir longe aqui! Semana q vem to por aqui pra conferir! rs
beijosss
É Niê, é tão contraditório que é mais prazeroso negar, porque aceitar que existem essas contradições é bem doloroso, né? Eu pelo menos fico mal em ver o quanto eu reproduzi e ainda reproduzo esses padrões. É horrível pensar que nem na minha intimidade e no meu prazer sou livre.
ResponderExcluirVocê citou os transtornos alimentares... como ainda tem gente que pensa isso no nível individual e reduz pura e simplesmente num transtorno, né?
Adorei o post Isa. A cada dia que passa estou mais satisfeita em fazer parte desse Blog, vocês são ótimos ! ! ! :)
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