segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sexualidade - parte II - O mito da perfeição

A postagem de hoje é a continuidade de uma série de textos sobre sexualidade que iniciei aqui.

Como eu havia contado, a minha busca no Google pela palavra “sexo” teve como primeiro resultado o site SexoBr, um site de vídeos e fotos de pornografia. Vou confessar para vocês que não conferi todo o conteúdo, apenas os expostos na página principal e também verifiquei as categorias nas quais o material é dividido. Isso já foi o suficiente para fazer algumas observações e muitos questionamentos.

A primeira observação, e mais óbvia, é o sexo como mercadoria, como produto. Sim, na sociedade capitalista tudo vira mercadoria, isso inclui nossa sexualidade e nossos corpos, que estão submetidos à lógica produção-consumo. Acredito que isso não seja novidade pra ninguém. Entretanto, observar esse produto de maneira mais crítica permite analisar a ideologia vendida, quais são os padrões e estereótipos reproduzidos e o que é dado como normal e verdade.

Os vídeos e fotos são praticamente todos de pessoas brancas. As atrizes e modelos são, na maioria, loiras de cabelos lisos. São tão parecidas umas com as outras que muitas vezes achei que eram a mesma. Tudo bem, não vou ser tão injusta a ponto de negar que haviam, sim, mulheres negras e asiáticas. Contudo, estavam “classificadas” em categorias específicas: “asiáticas” e “negras e mulatas”. Bom, aí já dá pra perceber que a ideia é que mulher é mulher branca, quando tem outra raça ou etnia não é mulher, é mulher negra, mulher mulata ou mulher asiática. Homens negros não são “classificados”, mas em todos os casos eram valorizados por seus pênis muito grandes, o que não deixa de ser um estereótipo racista. Há também a categoria “interracial”.

O machismo é evidente. Mulheres submissas, o tempo todo disponíveis e excitadas, cenas de estupro e violência, os orgasmos são sempre controlados pelos homens. O que é diferente disso pertence a outras categorias, como “safadas” ou “dominadoras”. Os nomes dados às mulheres, ativas ou passivas, são quase sempre depreciativos: “safadas”, “galinhas”, “cachorras”, “putinhas”, etc. As relações lésbicas têm homens como espectadores, ou seja, nem vídeos e fotos de lésbica são para mulheres. Gays e travestis são categorias à parte.

Mesmo que o site exponha também formas de sexo que não são tão aceitas socialmente, como a zoofilia ou a coprofilia, não conseguiu escapar da reprodução de padrões de comportamento e estéticos. Todos têm orgasmos (as mulheres gemendo muito alto e os homens ejaculando litros de esperma), quase sempre ao mesmo tempo, sem sequer a necessidade de preliminares. Sexo oral é saboroso e sexo anal não é dolorido, todo mundo gosta. Todas mulheres gostam de receber tapinhas, bem como todos homens gostam de bater. As mulheres são magras, têm seios médios ou grandes, bumbuns redondos e empinados, fazem caras e bocas e usam salto alto para transar. Os homens são fortes e têm pênis enormes. Todos são jovens. Não existem pelos, cicatrizes, gordura, celulite, estrias. Deficiência, então, nem pensar. E tudo o que é diferente disso também é categorizado: “gordas”, “coroas”, “bizarros”.

Aí vocês podem me dizer: “Mas, Isabela, sexo não é só a pornografia. Você não pode generalizar sexo ao que você pesquisou no Google”. É verdade. No entanto, esses padrões não são reproduzidos somente na pornografia. A mídia e a indústria cultural colocam isso como ideal. Para lembrar de qualquer programa de TV, filme, música, campanha publicitária, revista que não reproduza isso é preciso fazer um esforço enorme (alguém se lembra?). Além de mostrarem o ideal, ainda dão receitas de como chegar à perfeição, sempre se baseando no consumo e na coisificação das pessoas. Existe receita para um corpo perfeito, para o orgasmo perfeito, mesmo prazer, beleza e perfeição sendo conceitos tão subjetivos.

E aí chegamos no ponto que eu queria: a subjetividade. É muito comum ouvir o discurso: “faço isso porque eu gosto, me sinto bem”, “gosto de me sentir bonita, me arrumo pra mim”. Tudo bem, eu tenho quase a certeza de que as pessoas realmente se sentem mais bonitas quando se arrumam, estão mais magras. Contudo, o belo não é escolhido. Ele representa os padrões determinados, o diferente é feio ou “categoria à parte” e provavelmente gera algum sofrimento. Isso está tão internalizado que pouco é questionado, já é dado como realidade.

E agora fica mais um questionamento: se o sexo é uma mercadoria, vendida tanto e tão facilmente, por que ainda é tabu? Só para manter a discussão aquecida para o terceiro e último texto, que chamei de “Corpo, tabu e dominação” e postarei semana que vem.

Até lá.

5 comentários:

  1. Oi isa,

    Recomendo a leitura do Livro a História da sexualidade de Michael Foucault e revolução sexual do Wilhelm reich. Os dois dão um belo panorama a respeito da sexualidade. Dois belos livros.
    Bruno

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  2. Ah sim, Brunão... muito do que li sobre sexulaidade foi no Foucault, principalmente para meu TCC, que usei muito o volume I.

    Agora Reich nunca li, e olha que até tem aqui em casa, mas acabei priorizando outras leituras e não tive mais oportunidade... Mas valeu a recomendação. Eu imagino que seja mesmo muito bom.

    No final do terceiro texto vou fazer uma listinha de textos, livros, sites e blogs que eu recomendo. Fica de olho...

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  3. Nossa, Isa! Mto bom seu post... as contradições q vc apontou realmente me fizeram pensar sobre essa questão do sexo como tabu, mesmo sendo tão incentivado direta e indiretamente!
    A mídia divulga os padrões de beleza, em alguns casos absurdos (aí podemos entrar na questão até de distúrbios alimentares q podem ser causados por conta disso), sempre voltados à essa questão sexual, fazendo parecer algo comum. Porém, a repressão sexual é nítida e causa até mesmo sentimento de culpa em algumas situações. Sexualidade é um dos temas mais delicados e polêmicos, principalmente qdo relacionado à religiosidade ou moralidade, mas a mídia sempre tenta, com a famosa luvinha de pelica, passar a falsa sensação de normalidade!
    Enfim, é uma contradição tão contraditória q nem sei se consegui me expressar direito... podemos ir longe aqui! Semana q vem to por aqui pra conferir! rs
    beijosss

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  4. É Niê, é tão contraditório que é mais prazeroso negar, porque aceitar que existem essas contradições é bem doloroso, né? Eu pelo menos fico mal em ver o quanto eu reproduzi e ainda reproduzo esses padrões. É horrível pensar que nem na minha intimidade e no meu prazer sou livre.


    Você citou os transtornos alimentares... como ainda tem gente que pensa isso no nível individual e reduz pura e simplesmente num transtorno, né?

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  5. Adorei o post Isa. A cada dia que passa estou mais satisfeita em fazer parte desse Blog, vocês são ótimos ! ! ! :)

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