Seguindo a lógica da semana passada, hoje darei continuidade ao artigo que iniciei e que foi intitulado como Tratores não pedem passagem, como uma adaptação do texto da Mariana Fix que acompanhou de perto a desapropriação das favelas no entorno da Avenida Berrini. Para os que não leram o post anterior clique aqui.
Para poder deixar o blog mais fluido, farei artigos menores, na tentativa de abordar conceitos específicos a cada semana. Seria uma grande pretensão dizer que eu conseguiria a abarcar todos os pontos possíveis. Trata-se de um campo bastante complexo. Qualquer tentativa minha de fazer isso em um blog, será superficial, mas que servirá para ponto de partida para a discussão de outros pontos.
Mesmo sendo uma continuação de um trabalho já iniciado vou tentar escrever de maneira a que eu traga novas referências para contribuir com essa discussão ligada diretamente a vulnerabilidade social de algumas camadas da população.
Não pretendo me adentrar demais, mas antes faço uma pausa para responder uma pergunta feita por um amigo meu: “Mas será mesmo que o Maluf foi um filho da p#@%&? Será que ele apenas não relatou o que veio por intermédio de um relatório de uma assistente social, que foi educadamente solicitada a proceder daquela maneira?
A resposta é simples e direta: Não importa. A idéia de um pensamento voltado para a psicologia comunitária não é pensar o indivíduo isoladamente e ausente de outros determinismos que vão além de seu histórico pessoal, mas pensar as relações como um todo, ou seja, pensar na idoneidade do Senhor Paulo Maluf ou da assistente social é indiferente. Existe uma estrutura muito bem definida em nossa sociedade que, particularmente, não perpassa por questões subjetivas de cada sujeito, mas a regras estabelecidas culturalmente, socialmente, economicamente e outros, não dependendo do sujeito que ocupa o cargo. Uma transformação da sociedade não depende exclusivamente de uma transformação daquele que está no palanque, mas uma transformação nas relações sociais, econômicas e culturais. Trata-se de ver todo o contexto em que está inserida a situação descrita. Podemos pensar inclusive em que tipo de educação formal foi recebida para assistente social, ao que parece, completamente acrítica, mas mesmo assim temos que pensar o todo e conseqüentemente, pensando na idéia de dispositivo de Foucault, a universidade tem um papel bem definido em sua prática e por se ser um dispositivo, reproduz a lógica da nossa sociedade. Mas não colocaria a minha mão no fogo pelo Maluf.
A escolha do texto da Mariana Fix foi apenas para trazer uma referência para pensarmos em questões mais amplas. Preferi trazer algo palpável, mas que ocorre freqüentemente em nome de um pseudo-progresso. Muda-se o local, o dia ou a população e temos exatamente as mesmas atrocidades. Em grande verdade, tratam-se de grupos que historicamente estão ligados a uma questão de dominação e, conseqüentemente, ligados ao fenômeno da Humilhação social.
Explico melhor. Humilhação tem em sua origem latina a húmus, que significa terra. Humiliatio (humilhação) adquiriu o sentido de “fazer cair por terra”. Esta denominação deu o sentido para humilhação como um ataque, até assumir um sentido moral, sendo que é uma ação pela qual alguém põe outro como inferior, abordando-o soberbamente. O humilhado supõe o soberbo, o soberbo supõe o humilhado. Hoje me manterei sobre esse único conceito.
A humilhação social é um sofrimento longamente aturado. Não é algo novo, mas ancestral e repetido. No caso Brasileiro a humilhação social começou com a servidão e a escravidão, passando pelos imigrantes baixo-assalariados, alcançando roceiros, mineiros, operários, desempregados e subempregados.
A lei e a constituição são claras e os direitos são oferecidos, mas não garantidos. A desigualdade social é um estado de grande disparidade entre as pessoas, gerando uma situação de desnivelamento. A igualdade que falta é a igualdade recusada. Foi recusado o igual direito de agir, falar, tomar parte nas iniciativas e decisões. A questão da desigualdade social passa diretamente pela questão da dominação. Perde-se a relação de igualdade e o sujeito entra em situação de depreciação. Trata-se de um fenômeno inteiramente político.
Sim, político. A superação da situação de desigualdade social não passa necessariamente pela questão econômica. Se pensarmos em algumas culturas que se defrontaram, como a cultura alemã e judaica, a questão econômica não foi o que causou diretamente o extermínio de milhões. É uma condição política. A maioria dos trabalhos realizados para o fim da desigualdade social são calcados na idéia de eliminação das diferenças. Entendo o fenômeno de forma diferença. Igualdade social é igualdade política, igualdade de direitos. É a possibilidade de agir, falar e tomar parte nas iniciativas e decisões.
Para atingirmos a igualdade é preciso pensar não em suprimir as diferenças, mas as desigualdades.
Bruno Miralha Nocko
CRP: 06/1061234
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Olá Bruno, muito pertinente esse tema, e de grande relevancia os comentarios e criticas da sua colocação em relação as desigualdades.Essas geradas pelo sistema capitalista que fazemos parte; o mesmo sistema que produz as desigualdades, reproduz e exclui os "desiguais" quando não conseguem ser inseridos no mesmo, necessario pensar na sociedade como um todo principalmente os que fazem parte da sociedade dos desiguais, tratando como problema de toda a sociedade não só de um orgão ou um lider.
ResponderExcluirpara sua reflexão uma das frases que se encaixa bem nesse tema abordado e que gosto muito.
“Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; política sem idealismo; religião sem sacrifício e ciência sem humanismo”.
Mahatma Gandhi
Letícia E. Santos
Oi Letícia! Obrigado pelo comentário!! Seja bem vinda!! Todo dia a gent tenta postar alguma coisa nova!! Espero que você goste! Criticas são sempre bem vindas também, ok? Bjos!
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