terça-feira, 18 de outubro de 2011

Identidade

Olá Amigos,

Como puderam perceber, semana passada eu não puder contribuir com o blog. A verdade é que eu estava sem saco, vontade e inspiração. Para não me forçar a escrever alguma coisa ruim, achei melhor me ausentar. É. Nós psicólogos também ficamos de saco cheio. Mas agora estou de volta e empolgadíssimo em continuar o trabalho. Como tive uma semana a mais de folga para escrever acabei tendo algumas idéias bem interessantes para dar continuidade aos artigos, mas ontem assisti uma notícia que me fez pensar bastante em nossa organização social. Ela falava sobre uma advogada que havia sido brutalmente assassinada. Mas o que me chamava atenção não era o violento crime, mas que seu nome, pronunciado apenas nos primeiros momentos da matéria, foi esquecido e os repórteres se referiam a moça a apenas como advogada.

Algum problema nisso? Talvez. Pra que eu possa desenvolver minha linha de pensamento precisamos bater um papo sobre identidade, mas devido a complexidade do conceito, da enorme quantidade de definições e a incompetência daquele que vos escreve é praticamente impossível explicar um conceito tão rico em poucas linhas como as dispostas para esse momento, mas farei o possível. Entendo que identidade é uma porção de coisas que não são propriamente você, mas que te definem. Explico melhor. Bruno Miralha Nocko, psicólogo, filho, primo, neto, estudante, orientador sócio educativo, baixista e amigo. Trata-se de uma definição simples sobre coisas que eu tenho e sou e que não são propriamente eu, mas que me definem. Eu não sou apenas psicólogo, pois esta é minha profissão, eu não sou apenas baixista, pois esse é meu hobby, eu não sou apenas filho ou primo, pois sou também neto. Basicamente a identidade me define como membro de grupos e comunidades, permitindo me diferenciar de outros grupos e pessoas. 

E onde pretendo chegar adotando esse conceito de identidade? Antes preciso contar um pouco sobre meu trabalho. Além de Psicólogo clínico, sou também Orientador Sócio Educativo no projeto Atenção Urbana da Prefeitura de São Paulo. Eu e outros orientadores damos assistência para pessoas em situação de rua. Mais do que se imagina, facilmente encontramos advogados, enfermeiros, médicos e fisioterapeutas atirados na calçada com a saúde física e mental altamente debilitada. E trata-se de algo totalmente chocante em nossa sociedade que profissionais gabaritados podem estar em uma situação extrema de vulnerabilidade

Mas por que nos chocamos ao saber de casos como estes, em que pessoas com uma formação acadêmica rica e adequada para nossa sociedade vão parar no submundo da rua, da mendicância e do trabalho informal?

É quase como se o futuro da advogada assassinada valesse mais do que o futuro daquele pai de família, metalúrgico, que morreu da mesma forma.

É quase como se o morador de rua, médico, tivesse desperdiçado uma vida produtiva. Em detrimento disso, raramente nos chocamos com moradores que nunca tiveram reais condições de ir à escola ou se desenvolver conforme as definições da nossa sociedade. Pelo contrário. 

Justifica-se a pobreza pela falta de vontade do próprio morador.

Se eu tenho a possibilidade de produzir, eu mereço mais reconhecimento do que aqueles que  não a tem. Se sou morador de rua e tenho uma profissão, sou apenas um efeito colateral do sistema e assim que me reerguer voltarei a produzir. Essa é a expectativa de todo trabalho assistencial. E aqueles que não produzem não fazem parte direta da nossa sociedade, ficando apenas como observadores da vida social. E isso é claro desde a criação do primeiro manicômio.

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