Há um mês e meio comecei a trabalhar com adultos em situação de rua em um programa da Prefeitura de São Paulo chamado Atenção Urbana, mesmo programa que o Bruno Nocko, como ele conta neste post. Essa experiência tem sido muito interessante pois tenho refletido sobre coisas que pouco conhecia, como por exemplo as políticas públicas para essa população. Centros de acolhida (conhecidos como "albergues"), espaços de convivência, centros de referência, atendimento à saúde e tratamento de alcoolismo e dependência química são serviços que hoje fazem parte do meu cotidiano de trabalho e, por isso, me chamam muito mais a atenção do que antes.
Quando li a notícia sobre o Centro de Acolhida em Pinheiros que deu muita polêmica entre os moradores do bairro e o Ministério Público, fiquei muito indignada, mais ainda do que se não conhecesse esse serviço. O que mais me indigna é o discurso das pessoas que, para a imprensa, é mascarado por uma falsa preocupação com os usuários do albergue. O representante da Associação de Moradores e Comerciantes de Pinheiros afirma que o local é inadequado, tem infiltrações e pouca entrada de luz. A Associação não propor, então, o aluguel de outro imóvel mais adequado, a semelhança com o ocorrido em Higienópolis com relação a uma estação de metrô e o descaso da população em geral com os moradores de rua são fatos que me fazem pensar que essa preocupação é falsa.
Apesar de discordar bastante com as opiniões de Reinaldo Azevedo, da Revista Veja, devo admitir que, ao menos, ele foi sincero ao apontar as reclamações dos moradores do bairro. Azevedo fala neste artigo sobre a preocupação com a "deterioração do bairro" (sic) e os problemas sociais que como alcoolismo, crack e violência.
A preocupação em si, não me parece um problema. As questões apresentadas por ele são reais e atingem a maior parte da população de rua, sim. Entretanto, reconhecê-las e não aceitá-las em seu bairro é higienismo. Azevedo diz: "É claro que essas pessoas têm de ser
abrigadas em algum lugar, com dignidade. Mas que se faça, então, o
serviço completo para não prejudicar ninguém". E eu questiono: em que local esse serviço seria completo? Por que não em Pinheiros, bairro bem localizado, próximo a tantos outros serviços e transportes públicos?
Outro ponto que questiono é a presença de carrinhos e cachorros abandonados nas imediações dos albergues. O jornalista diz: "Boa parte deles leva consigo um
carrinho ou algo assim, onde carregam alguns pertences. Os albergues não
têm como fazer a guarda desse material, que costuma ser largados no
passeio público". Na verdade, os albergues devem, sim, guardar o material pessoal das pessoas. O Centro de Acolhida Oficina Boracea, por exemplo, foi construído com esse objetivo. É o maior albergue da América Latina e um dia foi referência no serviço. Nele há espaço para carrinhos, canil, leitos com enfermaria e espaços para realizações de oficinas de arte ou capacitação para reciclagem e cooperativas. Houve, contudo, um sucateamento do Boracea nas últimas gestões da Prefeitura e hoje a situação desse Centro de Acolhida é decadente. Quem passa pela região da Barra Funda pode ver nas placas que indicam "Oficina Boracea" o desenho de uma pessoa com um carrinho e um cachorro, atualmente impedidos de passar pelo portão. Além disso, alguns moradores de rua dizem que preferem dormir na rua a ir para lá, pois são mal recebidos, a comida é de má qualidade e há infestação de "muquiranas" (tipo de piolho). O problema, então, é o albergue ou o descaso e a falta de investimentos?
Quase todo dia o Atenção Urbana recebe solicitações de munícipes para verificarmos a situação de alguma pessoa na rua. Algumas vezes são de pessoas preocupadas com a presença de crianças, com as baixas temperaturas ou ainda com possíveis problemas de saúde. Muitas vezes são de moradores preocupados com a "limpeza" da rua, com colchões, papelões, restos de comida. Já ouvi deles que moradores de rua deveriam ser colocados em um navio e jogados no mar, ou ainda que era um absurdo não os recolhermos.
Se ninguém quer moradores de rua por perto, se isso "não é problema meu", se é algo a ser combatido, e não resolvido, se é intolerável, devo concordar com o Promotor Mauricio Ribeiro Lopes: é nazismo. Se é higienista, eugênico, preconceituoso e meritocrático, é nazista.
Refletindo, a frase que um dia ouvi faz muito sentido: O NAZISMO PERDEU A GUERRA, MAS VENCEU NA IDEOLOGIA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário