segunda-feira, 7 de novembro de 2011

As sexualidades - Assexualidades

Como já havia mencionado nessa série de posts, tenho grande interesse em ler e pesquisar sobre a sexualidade. Durante minhas pesquisas para o TCC, estava procurando um texto do antropólogo Luiz Mott, referência do Movimento Homossexual no Brasil. Clica aqui, clica ali, me deparei com o blog Sim... Assexual. E daí?

Apesar de já ter ouvido falar da assexualidade como mais uma orientação sexual, confesso que, até então, não havia lido nada a respeito. Passei horas lendo cada post do blog, perdi um dia de TCC, mas ganhei em saber mais sobre um assunto tão importante. Confesso também que, a princípio, o blog foi um soco no meu estômago. Como eu, psicóloga, que fala tanto sobre liberdade e liberdade sexual, me esqueci que liberdade sexual é também poder não desejar o sexo? Pois é, vivendo e aprendendo. Durante esses 5 anos de Psicologia, nunca ouvi alguma discussão sobre a assexualidade na sala de aula e outros espaços acadêmicos. O pouco que sei sobre o assunto, portanto, encontrei por pura curiosidade.

Mesmo o assunto ter me interessado, deixei minhas descobertas e reflexões guardadas na gaveta. Até me lembrei delas quando fiz a série de posts sobre sexualidade, mas achei que ainda não tinha recursos e fontes suficientes para dissertar, até que hoje me deparo com o texto Por que precisamos falar sobre assexualidade, da Renata Be, no Blogueiras Feministas e senti uma vontade imensa de botar tudo para fora da gaveta.

Como a Renata disse, é difícil definir assexualidade. Não é possível afirmar que a assexualidade é exclusivamente a ausência de desejo sexual. Julio Neto, autor do blog que citei, não parece muito preocupado com as definições. O que ele faz (muito bem, por sinal) é criticar e questionar as necessidades do ser humano, o que é dado como natural, quando na verdade é cultural, os padrões, os estereótipos, os preconceitos e, principalmente, a normatividade.

Compilei alguns trechos de seus posts só para dar um gostinho:

"O senso-comum sobre a sexualidade é o mais difícil de ser modificado. Nosso pudor, medo, remorso e todos outros sentimentos imagináveis, nos impedem de lidar com algo que é parte tão fundamental de nossa cultura. Como se apenas por ignorar certos problemas, conflitos, desconfortos, etc. eles fossem desaparecer. Não é assim… precisamos refletir sobre aquilo que chamamos de sexualidade tanto quanto discutimos sobre segregação racial, violência, saúde, etc."

"Por outro lado também nos sentimos impotentes quanto a tudo que se diz sexual. Temos uma crença – sem qualquer fundamento – em um certo naturalismo que termina em um determinismo. Como se aquilo que chamamos de sexualidade fosse algo completamente imutável. Daí surgem as concepções do que é certo ou errado. Como… O “natural” é ser heterossexual, porque as pessoas ou nascem home ou mulher, sem meio termo; os homossexuais nascem dessa forma, não podemos mudá-los, porque estaríamos mudando sua natureza; o natural é a estimulação pela penetração vaginal, sero anal é uma abominação da natureza; uma pessoa que não gosta de fazer sexo é doente, porque é o sexo é da natureza humana; e por aí vai…"

"A sexualidade humana é logicamente suportada por uma base fisiológica. Afinal, sem cérebro hornônios, órgãos genitais, etc. não poderíamos fazer nada disso. Contudo nossa base física, por assim dizer, é quase totalmente (ou totalmente mesmo) desprovida de instintos e demais mecanismos INCONSCIENTES de reprodução sexual. Inclusive esse é um aspecto fundamental no ser humano, não fazemos sexo por reprodução, nem por instinto (como um forma quase mágica que nos levar a fazer), nem fazemos sexo da mesma forma(se fosse instinto seria praticamente igual entre todos). Como é mais que óbvio (e só não vê quem não quer) sexo é um comportamento humano, e como tal é socialmente construído, por nós mesmos e a cultura que nos “ensina” como devemos viver."

Hoje, ao ler o post da Renata, tive o prazer de conhecer outro blog interessante sobre o tema, o Assexualidades, de autoria da pedagoga Elisabete Regina Baptista de Oliveira, pesquisadora do tema. Elisabete compartilha com os leitores pesquisas científicas e mostra o quão o debate ainda é lento e tímido. Os posts que me chamaram mais atenção foram aqueles sobre identidade. Em um deles, ela faz referência a um estudo estadunidense sobre como os próprios assexuais definem sua sexualidade:

"Embora a falta de atração sexual tenha sido bastante invocada para descrever a assexualidade, essa não foi a única definição utilizada pelos entrevistados. Parte dos respondentes definiu sua assexualidade 'como falta de interesse na atividade sexual, não necessariamente como falta de atração sexual'. Portanto, para esses entrevistados, aparentemente o comportamento sexual é mais definidor da assexualidade do que a falta de atração."

"A redefinição de comportamentos tradicionalmente considerados sexuais como não sexuais desafia o binarismo sexual/não sexual. As definições assexuais de sexualidade revelam a construção de atos sexuais, como a masturbação, beijos e abraços como desassociados de seus significados sexuais normalmente atribuídos a esses atos."

Reforço a pergunta do Julio: "E daí?" Mesmo que a assexualidade desafie e nos faça repensar muito do que aprendemos na Psicologia, mais especificamente com as teorias Psicodinâmicas, essa pergunta é imprescindível para as pessoas que estudam a subjetividade humana. As representações e implicações dessa orientação sexual na vida de cada pessoa é ainda tão desconhecida que me parece que a "causa" não é importante, assim como não deveria ser para todas orientações sexuais. Eu, como psicóloga, penso que devo estar mais preocuapada com a relação da pessoa com sua sexualidade do que com ela em si.

E fica ainda mais um questionamento: Por que o não desejo pelo sexo parece ser um tabu maior ainda do que o desejo em si?

O que vocês acham???



PS: Pessoas queridas, semana que vem não postarei porque estarei no Encontro da Abrapso, mas daqui 15 dias volto contando como foi o evento. Até.


Um comentário:

  1. Minha resposta para sua pergunta é simples. (Mas não passa de teoria)

    Pense na "sexualidade" como algo que faz parte do sistema social. Mas uma parte MUITO importante desse sistema. Tão importante que com um pouco de exagero, muito pouco, podemos dizer que ele é a mecânica fundamental. É não apenas a forma como o sistema funciona, mas sua "ontologia".

    Outra observação interessante é: qual a importância da relação sexual para o indivíduo? Veja... a relação sexual em si não tem importância alguma! Não pode nutrir qualquer demanda fisiológica. Mas pensamos no sexo como algo MUITO importante, fundamental, essencial! Ora, para o que? Para quem?

    Para o indivíduo o sexo não representa nenhuma necessidade particular. Não representa, em si, nenhum prazer substancial. Essa necessidade só surge como uma demanda social. Afinal, por que é tão importante sentir prazer na relação sexual? Ora, qual a lógica interna desse processo? [Observe aqui como a psicologia fez projetos de uma artificialidade teórica incrível! Os "caras" em momento algum percebiam que boa parte do que falavam não seria diferente de uma conversa sobre o sexo dos anjos!] Observe que falar de sexo como uma "brincadeira" ajuda as pessoas a ignorar boa parte desses questionamentos, que eventualmente emergem mas são silenciados [são silenciados em nome da coesão social].

    Dessa forma o tabu da assexualidade não é diferente do tabu do incesto.
    Visa apenas garantir determinada estrutura social.
    Toda cultura produz mecanismos de manutenção e proteção, caso contrário não se consolidaria em condições mínimas de reprodução [e que reprodução! Inquestionável, soberana, censuradora].

    O que as pessoas não entendem é que as estruturas sociais não são da conta de ninguém em particular. As vezes pensamos no "normal" como o 'meio ambiente', como algo que devemos preservar para o nosso próprio bem. Afinal... para quem importa?

    Por isso é fácil perceber que o problema da assexualidade provoca as pessoas de uma forma muito superior ao homossexual, e até mesmo ao conflito religioso. Na verdade... é pior do que o conflito de identidade. Porque no conflito de identidade há algo externo que pode ser "lido" para buscar uma re-interpretação de si mesmo, como parte daquele ambiente. E quando tal ambiente naturalmente não existe e não passa de pura artificialidade social? Quando percebemos que por decorrência disso as regularidades [ex: todo homem gosta de mulher] que acreditamos com tanta fé religiosa também não passam de mitos?

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