Foto cedida pelo músico Rafael Pio.Essa semana a Folha de São Paulo publicou duas reportagens sobre os artistas de rua. Uma a respeito da autorização da prefeitura para a realização do trabalho destes em vias públicas, o que já está regulamentado desde Julho desse ano, e a outra sobre a rotina de uma estátua viva. Resolvi então, escrever um pouco mais sobre a elegância discreta desses artistas (texto da semana passada), desta vez de uma forma diferente, pensando sobre as possibilidades que temos ou não de ser como somos.
A primeira forma de socialização acontece dentro de casa, no seio familiar, os pais ou quem exerça função correspondente ensinam aos filhos regras e limites, o que pode fazer, o que não pode porque é “feio” e “errado”, o que não se deve falar, entre muitos outros. Assim, a criança aprende a se comportar de maneira “adequada” segundo os princípios e valores daquela família. A partir disso o superego, uma das instâncias psíquicas, é formado ainda na infância (para Freud). Agregamos a estas regras um conjunto maior delas, as leis, normas que regem o Estado regulamentando o que é permitido ou não e quais são as punições cabíveis caso alguém transgrida. O Estado é quem faz o conjunto do instituído e alguns grupos que compõem a sociedade tendem a sofrer com aquilo que está instituído. Há então uma tensão, um conflito entre os grupos e o conjunto de leis, regras, normas estabelecidos pelo Estado.
Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu quando a prefeitura de São Paulo proibiu o trabalho dos artistas de rua na capital sob a alegação de se tratar de um comércio ilegal, já que envolvia dinheiro, equiparando o trabalho dos artistas aos camelôs irregulares, sendo assim, também estavam sujeitos “ao rapa” com direito ao emprego de violência e algemas. Um guitarrista foi preso durante uma apresentação na Paulista. Há algum tempo atrás o cachorro que aguardava ao lado de seu dono pelo fim de sua apresentação (lembram-se? Comentei na semana passada), também foi levado pela polícia, pois por ser um cachorro de grande porte representava perigo à população e infringia os princípios sanitários. Hoje os artistas devidamente cadastrados podem se apresentar e “passar o chapéu”. Sim, cadastrados, pois assim o controle é mais efetivo e a punição, caso necessário, mais assertiva. O cachorro voltou a viver com seu dono, e passou a aguardá-lo em um local mais reservado. O homem continua dançando em cima da mureta em frente ao metrô Consolação, aliás, ele nunca deixou de dançar, pois para ele sua apresentação sempre foi possível.
Em terra onde a política do pão e circo ainda é uma possibilidade corriqueira e permitida, a livre expressão da arte em suas diversas manifestações, como prevista na Constituição Federal (considerada as ressalvas) é combatida, daí a sua impossibilidade. Por que será? Por que a arte na rua não pode ser algo para além dos impostos? Sim, porque foi essa a justificativa usada de que se tratava de um comércio ilegal. Se é ilegal, logo não paga os impostos, e isso sim interessa, regulamentar para pagar, vigiar e punir. Outra questão a ser considerada é a possibilidade de reflexão, libertação, compartilhamento que existe por meio das mais diversas formas de manifestação artística.
A arte tem um pouco do artista e muito de quem observa. Aquele que observa dimensiona o que está vendo, relaciona com suas experiências e pode remontar algumas vivências, daí o compartilhar. Penso a possibilidade do compartilhamento como algo bastante saudável, não necessariamente no sentido de um diálogo verbal, mas como uma maneira de “deixar e receber um tanto” ou afetar e ser afetado pelo outro, pensar o outro e a mim mesmo, a partir da contemplação mesmo que silenciosa daquilo que acontece ao nosso redor, por exemplo, na Avenida Paulista. Talvez assim, a avenida possa ser compartilhada e não apenas partilhada (dividida) por milhares de pessoas todos os dias, talvez o som dos sapatos de salto formando uma grande percussão possam se juntar aos outros instrumentos que tocam a e na Avenida, permitindo a emergência e o acolhimento do diferente, tantas vezes impossibilitados, como quando prenderam o guitarrista e levaram o cachorro do homem que dançava.
Mas na terra dos pensamentos com hora marcada talvez para aqueles meus colegas de andar apressado que ainda não conseguem visualizar a olho nu estas possibilidades, seja necessário ajudá-los com uma luneta.
Encerro com um trecho de uma música dos Novos Baianos chamada Mistério do Planeta, que me pareceu pertinente ao texto.
“Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta...”
Ótimo texto ... gostei sobretudo da definição de compartilhar ... creio que acertou na mosca!
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