terça-feira, 13 de setembro de 2011

Uma possibilidade de identificação.

 

Ultimamente tenho pensado na música de uma forma diferente daquela que eu havia pensado até então. Certa vez, ouvi de um, na época, professor que a música é um representante da indústria cultural, que ela é impositiva, veiculada como mercadoria e que não há, nesta sociedade, um espaço para não gostar dela. Esta defesa me marcou, me detive nisto durante um tempo. Agora, penso que ela não está de tudo errada, é uma perspectiva, mais me parece ser reducionista. Antes de continuar, preciso alertar o leitor que a minha proposta não é fazer uma análise da função social da música, e talvez nem mesmo da própria música. Me arriscarei aqui a pensar no espaço que ela parece dar para a identificação, do se achar na exposição de um outro, muitas vezes, desconhecido e distante. Também outras expressões da arte abrem espaço para isto, o teatro, o cinema, e outros tantos, possibilitam este depósito. Mas não sairíamos daqui hoje se eu tivesse a petulância de discorrer sobre eles também.

Vou delimitar mais ainda meu objeto, farei referência à uma música brega e romântica, ou melhor à uma canção brega e romântica da música popular. Descobri esses dias, de leiga que sou, que existe um debate fervoroso sobre canção, análise literária e o que mais o valha. Para você que ficou interessado em ler algo sobre, vou dar uma dica bem capenga: entre na Scielo e digite canção. Quando pensei em escrever sobre esse assunto li um. Do que consegui compreender ficou: antes havia uma análise ou só da  letra, inserindo a canção apenas no campo literário,  ou estritamente uma análise musical, o que excluía a primeira análise; mas, atualmente se sabe que a canção é um emaranhado entre a letra, a melodia, e a perfomance. Sabe aquela coisa que sentimentos de diferente entre um artista e outro cantando? É a tal da performance em jogo.

Outra coisa que eu não tinha parado pra pensar é sobre a singularidade da voz e como se dá a sua construção e o quão somos marcados por ela. Enfim, este artigo me ajudou a pensar algumas coisas que eu não tinha pensado antes, vou com o pé atrás e penso que é uma colocação de alguém que fala de algum lugar, mas não nego que achei ser uma perspectiva interessante.

Mas aonde eu quero chegar com tudo isso? Já, já eu digo.

Então a música é um produto, que é comercializado e que pode ter como foco primeiro a venda? Penso que sim. Tem toda uma discussão sobre a canção que não é meu intuito dar conta aqui? Também. Mas a letra é escrita por alguém que se imprime e se empresta para esta, que pode ser interpretada por outro alguém que vai e se coloca e que, espera-se, é ouvida por uma outra pessoa que vai e entende o que pode e quer? É nisto, é neste lugar que quero chegar.

Na área psi chama-se identificação o enxerga-se no outro, ver aquilo que lhe parece ser seu em outrem. E a projeção, muitas vezes um mecanismo de defesa, é o depósito de algo que não necessariamente pertence ao objeto alvo. Aí que esses dias eu estava com os meus botões pensando, quanta complexidade em jogo quando escolhemos uma canção para representar um sentimento que estamos passando. Para nos identificar e projetar no objeto é preciso que ele, de alguma maneira comporte isto, nesta coisa toda da canção apenas a letra é pouco, também tem a perfomance e a melodia, lembram-se? E quantas e quantas vezes não elegemos várias canções ao mesmo tempo?

Já me ocorreu pensar que uma canção dizia sobre uma coisa e ser sobre outra, olha a projeção em jogo. Por exemplo, achava que Volta Por Cima, fala sobre o amor, um amor não correspondido, e um dia um amigo me disse que teria sido feita por Paulo Vanzolini após a perda de um filho, ainda não fui atrás para ver se esta versão se confirma, mas faz muito sentido que sim. E para quem ficou inculcado com a perfomance, tente ver outros vídeos desta mesma letra interpretada por outras pessoas, é bem diferente,

Me estendi por demais, meu objetivo, discorrer sobre uma canção brega e romântica a partir da identificação e da projeção, será adiado para semana que vem. Nesta ocasião, quem sabe com mais acúmulo sobre o assunto.

Patrícia Andrade

5 comentários:

  1. O ponto no título é uma brincadeira proposital.

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  2. Pati, gostei bastant do seu texto. Durante um certo tempo também pensei bastante a respeito desta questão levantada na época pelo professor que nos deu essa aula. Hoje penso diferente. A música não pode ser reduzida únicamente a produto. Pelo contrário. Por ser uma forma de arte a música pode servir como objeto de libertação, mas para isso preciso adotar um referencial que não parta da teoria crítica, mas de uma perspectiva Freiriana. As múltiplas linguagens da arte são formas de se ver o mundo e vendo o mundo e consequentemente minha vulnerabilidade no mundo, posso refletir e me livrar dela. Isso é autonomia...

    Ainda falando sobre indústria cultural, realmente existe uma apropiação da industria em relação a música e sua comercialidade. Mas tem-se que pensar bem, pois os textos do Adorno sobre Jazz, que pra ele é a grande decadência da música, não são muito verdadeiros na minha opinião e ele desconsidera uma série de questões. Coitado, não viveu na época de eguinhas pocotó...

    Mesmo assim, adorno, quando fala do jazz fala que é uma decadência em relação a música clássica. Quando se pensa em jazz se pensa em que? Negros. Os grandes expoentes do jazz são negros e o jazz nasce como uma forma de protesto social e afirmação contra a opressão sofrida pelos negros. O Jazz é uma mistura de instrumentos clássicos, metais e ritmos africanos. A grande verdade é que o negro não podia tocar música clássica, então de que outra forma se expressar? Inventando um ritmo próprio que mantenha suas identidade culturais. Tudo está lá. O ritmo, o swing, a forma sincopada da música, os improvisos...enfim. Quando adorno fala da decadência da música e culpa o Jazz por isso, ele comete um grande engano que é desconsiderar as condições históricas para o seu surgimento. No livro a história social do Jazz o Eric Hobsbawm vai fazer ainda uma análise da importância do jazz tanto como forma de subsistência e também de reunião da comunidade.

    Agora, como músico amador que sou, tenho que dizer que o Adorno não foi justo quando avaliou o jazz pelo lado musical da coisa. Existem vários tipos de jazz...dixieland, big bands, bebop, free jazz, jazz modal, Rhythm changes...enfim. Cada qual com a sua própria característica própria, contudo, todos são marcados pela utilização de escalas e improvisos. Diferentemente do rock que valoriza a unidade coletica, o jazz é um agrupamento de individualidade que se expõem em solo. Ou seja, a cada música tocada existem sessões de improviso, que é a grande marca do jazz tradicional. Não se toca duas vezes um jazz da mesma maneira e ai está sua grande riqueza música. A partitura que é simples oferece uma gama de possibilidade praticamente infinitas de se tocar a mesma música e por isso que muitas vezes o mesmo jazz é gravado por milhões de cantores diferentes. Diferentemente da música clássica que, apesar das particularidades dos músicos ela é fechada em si mesma.

    De maneira nenhuma quero dizer que música clássica é melhor ou pior, mas apenas dizer que elas tem suas particularidade.

    E isso acontece também no Brasil. A bossa nova ou brazilliam jazz no exterior segue praticamente o mesmo padrão de improvisação do jazz, mas com a utilização de ritmos latinos e contagem diferente de tempo. Ou seja, é a ao mesmo tempo genial, tanto quanto o jazz e a música clássica.

    Tudo isso pra dizer que conforme um amigo meu disse, Adorno é um músico frustrado...

    ufa...

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  3. Pati, adorei seu texto, especialmente porque gosto muito da música do Vanzolini que vc citou. Também não conhecia essa versão da história de que a música seria para o filho dele.

    Eu penso que numa sociedade capitalista tudo está sujeito a virar produto, isso inclui a música, sim, mas eu também concordo com vcs que, reduzir a música a um produto da indústria cultural e ponto final é superficial e simplista.

    Penso que toda música, ou melhor, toda arte, tem um pouco do artista que criou e muito de quem observa (isso eu aprendi muito bem com outro professor). Entendo que, independente do que se considera bom ou ruim, alguma coisa é dita e alguma coisa é percebida com a arte, por isso, muito mais que um produto, ela pode ser até mesmo uma resistência a essa relação com a arte e/ou ao sistema. E ao passo que permite essa identificação que a Pati falou, também pode ser emancipadora, ou reflexiva e confortante.

    Também acho complicada fazer uma análise do que é bom ou ruim. Vejo muitas análises ou críticas ao funk como produto, mas a bossa nova não (Brunão, não estou falando que vc fez isso, só estou aproveitando que vc citou os dois). Esse tipo de análise me parece muito elitista, porque as duas músicas são compráveis ou vendíveis, mas se for pensar no contexto que foram feitas, eu diria que a bossa é mais produto do que o funk, se é que é possível quantificar isso. A bossa foi criada pra ser vendida para o mundo, não para os brasileiros, e o samba, o sertanejo e o forró não seriam vendidos porque esses, sim, são populares.

    Não estou falando de técnicas musicais, de poesia nas letras, mas nao dá pra falar que o funk não nos quer dizer nada. Diz sim, muitas pessoas se identificam, acho inclusive que o escracho e o apelo sexual de muitas dessas músicas são intencionais, e não uma qualidade "ruim". E negar isso, na minha opinião é elitizar a música.

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  4. Bruno, confesso que terei que pensar melhor sobre o seu posicionamento, não sei se concordo com tudo. Mas sim, acho que nas apreciações que fazemos e que "compramos" sobre as músicas e os gêneros musicais, há uma posicionamento que não está claro, a ideologia permeia. Fico feliz que o meu texto tenha possibilitado essa sua reflexão, de verdade, acho que o intuito maior é sempre tocar e inquietar o outro, e seu comentário pra mim é um demonstrativo do alcance disto. Vou reler outras vezes sua colocação e pensar melhor, pra continuarmos a discussão.

    Isa, gostei e concordo do trecho em que você diz "emancipadora, reflexiva ou confortante". Tenho pensado que as discussões que começamos sobre a ordem social, lá nas aulas, é apenas o começo mesmo. Temos que ir para a página dois, esses dias um personagem disse "onde há repressão, há resistência", e acho que é por aí sim, somos bombardeados a todo momento por uma série de interesses da macro estrutura, mas nossa apropriação disso tudo passa pela subjetividade e pela organização social, e aí dizer se é bom ou ruim é insuficiente, a análise deve ser aprofundada. Acredito que algo sempre diz sobre alguma coisa, podemos não estar de acordo com o que está sendo veiculado, mas assim como você, também acho que o funk, ou qualquer outro gênero musical que possa ser depreciado, tem uma intencionalidade.

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