Vocês se lembram do caso daquela mulher que foi impedida de
amamentar seu filho em público no Itaú Cultural, em São Paulo? Na
época, um grupo de mães indignadas se reuniu para fazer um mamaço em protesto. Frente a isso as pessoas tiveram reações e
algumas delas me chamaram muito a atenção. Por um lado, a visão
machista e conservadora de comediantes e jornalistas, como a dos
apesentadores do CQC ou da coluna de João Pereira Coutinho, que revela a mentalidade de que o corpo e a sexualidade da
mulher devem estar voltados exclusivamente para o desejo masculino.
Por outro, as respostas de pessoas que, chocadas com essas
declarações, revidaram com argumentos quase tão moralistas quanto,
se posicionando contra qualquer associação da amamentação com
sexualidade, considerando a maternidade praticamente como sagrada.
Não querendo puxar sardinha para a Psicanálise (já puxando um
pouquinho), a amamentação é sexual, sim. Ora, se estamos falando de
corpos, compartilhamento, afeto, prazer e satisfação, qual o
problema de considerar isso sexual? O problema é que as pessoas têm muita dificuldade em
falar, compreender, ou mesmo aceitar, sua própria sexualidade. O
problema é existe uma dicotomia “santa-puta”. O problema é que
nem nosso próprios desejos são livres. Problemas, problemas...
Refletindo sobre tudo isso, cheguei a alguns questionamentos: porque
o corpo e a sexualidade são tabus? Afinal, para quê serve ou a quem
interessa tanto controle dos corpos?
Difícil de responder, né? Como o objetivo desse blog não é
encontrar respostas, pensei em dois autores que li para fazer meu
TCC, que dão possíveis explicações para isso: o Foucault e o
Adorno.
No primeiro volume do livro História da Sexualidade, Foucault
questiona o controle pedagógico, as condenações jurídicas e o
tratamento médico como práticas para banir e excluir práticas
sexuais que não têm como finalidade a geração e, assim, afastar
as formas de sexualidade insubmissas à economia restrita da
reprodução. Ou seja, o autor diz que o controle sexual assegura o
povoamento e a força de trabalho, o que é economicamente útil e
politicamente conservador. Ele afirma ainda que até o final do
século XVII, a sexualidade era regida pelo direito canônico, a
pastoral cristã e a lei civil, determinando o que era lícito ou
ilícito. Esses três códigos tinham a relação matrimonial como
foco, mantendo-a sempre sob vigilância. Entre os séculos XVIII e
XIX, os casais legítimos (monogâmicos e heterossexuais) passaram a
ser menos controlados e sua sexualidade pensada com maior discrição.
Assim, o foco ao pensar a sexualidade voltou-se às “sexualidades
periféricas”, que eram consideradas pela medicina como perversão
e deviam ser controladas.
“A sociedade burguesa do século XIX e, sem dúvida, a nossa, ainda
é uma sociedade de perversão explosiva e fragmentada. Isso, não de
maneira hipócrita, pois nada mais manifesto e prolixo, nem mais
abertamente assumido pelos discursos e instituições” Foucault.
Já Adorno, no texto Tabus Sexuais e Direitos Hoje, compreende que a
liberdade sexual na sociedade atual não passa de pura aparência e
ainda revela como a sociedade burguesa dominou o proletariado. Ele
afirma que o sexo é deformado e modificado para a manipulação da
sociedade, bem como sujeito a ser explorado pela indústria cultural.
Assim, não é verdade que os tabus sexuais desapareceram.
Alcançou-se, na verdade, uma forma nova e ainda mais profunda de
repressão. Há então a dessexualização, que impõe tabus,
atemoriza, suprime o instinto sexual e torna ilegítima a vida
erótica "instintiva" das pulsões parciais. Assim, só é
permitido aquilo que está submetido e o que torna a repressão ainda
mais profunda é o fato de que os tabus são amparados, manipulados e
fortalecidos pelos poderes institucionais.
Pode parecer heresia (talvez seja só um equívoco), mas, ao meu ver,
as compreensões do Adorno e do Foucault se completam. E confirmam
meu entedimento de que não somos livres mesmo.
Há muito mais o que falar sobre sexualidade. Pretendo dar
continuidade nesses textos mais pra frente, falar sobre
homossexualidade, assexualidade, gênero. Mas, por enquanto fico por
aqui. Para não esfriar a discussão, deixo uma série de links materiais que recomendo para vocês:
Aleitamento Materno: construção hitórico-cultural, de Jaqueline Pascon
Teoria Antropológica e Sexualidade Humana, de Luiz Mott
Sexo na Cabeça, de Luis Fernado Veríssimo
Blog Sexo.AchoLegal
Blog Mamíferas
Site do Deputado Jean Willys

parabéns! O melhor dos três artigos sobre sexualidade. Muito bom mesmo.
ResponderExcluirQuanto a Foucault e Adorno, não vejo problemas em se complementares. Eles falam de coisas diferentes a partir de filosofias diferentes, mas se cruzam em suas singularidades. os dois são ótimos.