terça-feira, 29 de novembro de 2011

Loucura e Reforma Psiquiátrica - Parte 2

Antes de começar, gostaria de dizer que tive alguns problemas para postar nas semanas anteriores. A verdade é que estou atolado de trabalho e tenho encontrado dificuldade de postar constantemente, mas prometo que farei o possível para ter um artigo escrito a cada semana.

 Hoje darei continuidade ao artigo que comecei três semanas atrás. Falaremos um pouco sobre a história da loucura e sobre suas transformações ao longo do tempo, mas já aviso: para entender este artigo é fundamental que você leia o que já foi escrito anteriormente (clique aqui para ler). Sendo assim, a visão  o louco, que antes era considerado aquele que promete desvelar o mundo, o tempo do apocalipse, as verdades da condição humana e os segredos de satã passa a se transformar com a idéia de uma consciência crítica. Esta vai se tornando cada vez mais forte em detrimento da experiência trágica. 
 
A consciênca crítica, presente no discursos literário e filosófico, identifica a loucura à ignorância, ilusão, erro, conduta irregular, e qualifica o louco com “outro da razão” (Foucault, 2009). Identifica-se a loucura como uma cisão entre o homem e o mundo e ausência de saber. 

A crítica anunciada pela filosofia e pela literatura dá início a um processo de subordinação da loucura pela razão, processo que se radicaliza na era clássica e culmina com a instituição psiquiátrica no século XIX. O saber da loucura dá espaço para o saber da era clássica. Para Frayse (2002), o pensamento moderno aprisiona filosoficamente a loucura. Ela se estrutura no interior da sociedade burguesa. Uma sociedade voltada para os poderes da razão. Esta que fará do homem o senhor da natureza.

A idade clássica encontra em Descartes seu principal viés filosófico. Segundo Frayse (2002, p.61):
A loucura se vê privada do direito a alguma relação com a verdade. Sendo o sujeito que duvida ponto de partida do conhecimento verdadeiro [...], a loucura jamais poderá atingi-lo, pois o ato de duvidar implica o pensamento e aquele que pensa, e, por princípio, anula essa possibilidade. [...] O eu que conhece não pode estar louco, assim como o eu que não pensa não existe. Excluída pelo sujeito que duvida, a loucura é a condição de impossibilidade do pensamento.

     A radicalização do domínio da razão requer a expulsão da loucura inclusive do espaço social. Os loucos são colocados inicialmente em hospitais gerais criados por toda a Europa. A loucura não se torna um objeto de conhecimento específico, mas uma “excomunhão social” (CALMONENI, 2010, p.55)
Trata-se de recolher, alojar, alimentar aqueles que se apresentam de espontânea vontade, aqueles que para lá são encaminhados pela autoridade real ou judiciária. É preciso zelar pela subsistência, pela boa conduta e pela ordem geral daqueles que não puderam encontrar seu lugar ali, mas que poderiam ou mereciam ali estar. Essa tarefa é confiada a diretores nomeados por toda a vida, e que exercem seus poderes não apenas nos prédios do Hospital como também em toda a cidade de Paris sobre todos aqueles que dependem de sua jurisdição. (FOUCAULT, 2009, p. 49)

 Na era clássica, os critérios de internação não são definidos pela medicina e pelo discurso médico, mas por uma espécie de percepção social ou sensibilidade social. O hospital geral, criado pela iniciativa de Luis XIV, não é uma instituição médica, mas uma instituição assistencial, semi-jurídica e que isola certos tipos sociais, perigosos à ordem da sociedade. Para Foucault (2009), o hospital geral é um poder que o rei estabelece entre a polícia e a justiça e possui soberania quase absoluta.

A loucura passa a ser um problema de ordem social e precisa ser controlado quanto tal através de medidas eficazes à garantia da ordem social. A função moral dos hospitais gerais é a precaução, pois controla a massa heterogênea para afastar o inconveniente risco de revolta e da insurreição. Contudo, Foucault (2009) aponta que existe um conhecimento médico sobre o louco., mas esse profissional não se sobressai no hospital geral. É apenas na segunda metade do século XVIII que ocorrem importantes alterações que concorrem para a instituição da “doença mental” e da psiquiatria do século XIX. No nível teórico a loucura é transformada em alienação e no nível das percepções e práticas criam-se os asilos, instituições destinadas exclusivamente para o abrigo dos loucos, mas essa é uma história para a próxima semana!

Bruno Miralha Nocko
Crp: 06/106239
Tel: (11) 5734 3121

Um comentário:

  1. Mto interessante os dois textos, Bru! Aguardo ansiosamente a continuação! rs..
    beijosss

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